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Sunday, May 30

Por entre os teus meios


gosto dos teus mimos,
da tua boca
(e lingua),
cheiro,
abraço
(amasso),
pele e
regaço

- quê?

Disse que

- gosto dos teus mimos, da tua boca (e lingua), cheiro, abraço (amasso), pele e regaço

- Estás bem?

- Estou.... porquê?

- Viste bem o que disseste?

- Sim.

- ...

- ...

- Ora...

- Que foi? Ora o quê?

- fico envergonhada....

- Mas... Mónica...

- Deixa-me dormir.

- ....

- Mas eu só disse que

- Não sejas ordinário. Quero dormir.

Fim de citação.


umapalavravazia

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Friday, May 28

Mais um diálogo idiota


- Importas-te de levar isto mais a sério?

- Mas eu estou a levar a sério.

- Então o que é isto?

- Isto é o que me pediste.

- Pedi-te um texto sobre as coisas que mais gostas, porque supostamente terás jeito para escrever, e devolves-me este conjunto de banalidades e lugares comuns... saúde, segurança, amizade,....

- Eu sei o que escrevi. Não precisas de repetir. Mas... diz-me: já te passou pela cabeça que não sejam só banalidades e que essas coisas, sejam, de facto, as que mais prezo?

- Peço desculpa... pensei que fizesse parte das coisas que mais prezavas... (amuo)

- E fazes... ou esqueci-me de escrever liberdade?


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Friday, May 21

Estúpida alegria(*)


Bailas nos meus sonhos como um sorriso que plantaste para sempre no meu rosto. Chegaste agora a casa, vinda da praia e dizes que viste crianças, muitas, que estas pulavam de um lado para o outro e erigiam castelos de areia. Olhas-me nos olhos, como se toda a verdade estivesse neles e explicas-me que a primeira barreira a ceder ao ímpeto das águas foi o fosso construído à pressa, que a água do mar inundou o recipiente para além da sua capacidade, e que ponte de areia que o atravessava, dissolveu-se exausta na água que corria. Dizes que as crianças sorriem e cantam a alegria em gargalhadas, como tu já foste feliz um dia. Um dia que está a uma imensa distância, como também imensa é toda a água que hoje te salga a pele. Chegaste agora a casa, vinda da praia e uma estúpida alegria baila-te na pele e nos olhos: deitas-te na cama,

(o ténue vestido de linho a antever-te a nudez: por baixo do vestido reduzido, adivinho a intimidade que hoje ainda me entregarás)

e dizes que as crianças de seguida compraram gelados; que pegaram nas bicicletas e andaram andaram andaram. Deram às pernas nas bicicletas até a pele ficar rubra e os bafos saírem-lhes pela boca, como as chaminés da fábrica que, da janela do quarto, vemos ao longe. Estás feliz, uma sinestesia eufórica embriagou-nos os sentidos e quase dizes

amo-te

mas quando peço que repitas, devolves um

anda cá. E eu vou. Inseguro, com medo de tanta alegria, preparado para o pior, abraço-te. Digo

adoro-te, e tu beijas-me a pele, trincas-me o ombro e dizes

esta vai deixar marca

e aí, ainda fora de mim, cheio de tanta atenção tua, só penso que tens razão, que este momento vai mesmo deixar marca:

é certo e sabido que tão cedo não te verei assim feliz.

(*)Título gentilmente cedido pela Dália.

Margarida Delgado

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Sunday, May 16

Sonho mau


Sonhei esta noite contigo, sonho que me devolveu um pesadelo. Estavas à beira da morte, um cancro assomara-se de ti e eu, por contacto com o teu corpo, fora contaminado com o teu mal. Acordei aflito, muito, com um nó no estômago, a coração a dilatar-se ao longo das costelas, como se o meu peito se transformasse numa poça de sangue imensa, o sangue chegasse à minha garganta, da garganta à minha boca e eu tivesse dificuldades em respirar. Um pequeno fio de sangue brotou pelo centro da boca percorrendo o sulco dos lábios, até se libertar e manchar o rosto pálido e frio.

Entristeci, entristeci, entristeci. Sabia, porque nos sonhos sabemos sempre tudo, que tinha mais um ano de vida. Mais um ano, apenas isso, exactamente o mesmo tempo em que fora contaminado por ti. Pela tua doença, pela tua morte. Tinhamos o mesmo tempo de vida, ainda que as nossas vidas fossem diferentes e fossem outras vidas aquelas que partilhariam o resto da nossa vida. No entanto, o que me impressionou foi que, sabendo eu que teria o mesmo (tão pouco) tempo de vida que tu, apenas a tua morte me importava.


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Wednesday, May 12

O homem da gráfica


Mónica,

acaba de ligar-me o homem da gráfica:

- Sô Paulo, não há livros para ninguém.

- Como não há livros para ninguém?

- Não há, não consigo imprimi-los.

- E diz isso dessa forma leviana?

- Posso dizer a cantar, se quiser. [Risos]

- Mas que se passa afinal?

- A máquina não imprime. Encrava a cada segundo.

- Mas como encrava? Ó homem, arranje-se, tenho de ter livros na próxima semana.

- Mas não vai ter. Estou farto de andar a limpar as lágrimas e o sangue que se acumulam no chão da gráfica. Impossível. Esqueça.

- Sangue?

- Sim, sangue.

- Lágrimas? Mas qual sangue, quais lágrimas?

- O sangue e as lágrimas que jorram das palavras impressas no papel.


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Tuesday, May 11

...


Vidas paralelas que crescem, florescem; formas que não sonhei tomam-me num murmúrio. Um filho que não concebi - caminhos certos por linhas, paralelas, tortas. Sentado aguardo - a vida que cresce dentro de mim.


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Wednesday, May 5

Tantas cartas


Mónica

Cartas, tantas. Tantas cartas a Mónica. Cartas que se amontoam, que se cruzam, se ultrapassam. Tantas linhas escritas, rasuradas, cruzadas como destinos que não se encontram. Mónica triste, Mónica alegre – deprimida e dorida. Mónica feliz, Mónica minha vida.

Mónica

Mónica

Mónica

Tantas cartas, tantas Mónicas, tantas cartas a Mónicas, que um dia serão matéria. Num só livro...


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