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Saturday, February 28

Apelo grave


Estou grávido de ti há meses. A tua lembrança segue-me nas noites e dias e noites e dias. Para onde olho, para onde vou, tu persistes: incomodativa teimosa amarga cáustica enfadonha inoportuna maçadora insuportável constrangedora tortuosa: desaparece.

Não queres arredar pé do espaço que é meu, o mesmo que insistes em insultar. Quantas vezes tenho que repetir? Deixaste de ser bem vinda.

Não me aborreças mais hoje. Preciso de trabalhar, preciso de viver, ser eu sem que tu autorizes os meus passos. És uma parasita, insistes em fazer dos meus dias os teus dias, estás alojada à minha pele e às minhas lembranças. Nos meus sorrisos estás tu, nas minhas palavras difusas, o teu tom assalta a voz que é minha e não há dia que passe sem que deixe de pensar em ti. Qual foi a parte que não entendeste? Não te quero mais. Deixaste de ter autorização para permanecer nas horas que vivo. Desaparece para o mesmo canto de onde vieste, ninguém te chamou aqui hoje, porque insistes?

Vezes sem conta ameaçaste que partirias. Pois assume o que outrora ameaçaste;

(continuas assim e ainda te vais dar mal)

deixa-me aqui sem apareceres, como nas vezes em que apareceste e te mostraste ausente. Preciso que não persistas para que eu vingue. Preciso. Desaparece.

por favor.


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Wednesday, February 25

Espera por mim


nessa casa escura, deixada ao vento e à solidão. Não te esqueças de trancar a porta duas vezes e rezar outras tantas antes de dormir. Não voltarei esta noite: ficarei à espera que me digas que posso regressar. Espera

por mim

com o mesmo sorriso que me beijou o rosto antes de fechares a porta, instante tão próximo que sinto ainda o odor do mogno infiltrar-se nas narinas . Não recordo o teu cheiro, ignoro se usavas o Contradiction se o Angel, mas recordo-me do odor a mogno

(porque será)

da porta que espero que já tenhas trancado por duas vezes. Não voltarei esta noite, não sei se já te disse. Por isso nem esperes por mim. Passearei por aí, possivelmente voltarei ao local onde fomos felizes. Atravessarei a ponte e ficarei sentado no carro, estacionado junto aos muros caiados onde uma vez disseste

- espera por mim amor

e eu,

(amor?)

detive-me debaixo do cipreste que fazia sombra à campa do meu avô. Caminhava vagarosamente, um passo a seguir ao outro, pelo carreiro de pedra, emoldurado pelas lápides de mármore e o cheiro das flores molhadas, e tu repetiste

(amor?)

com uma lágrima a invadir-te os olhos de água,

espera. Mais tarde, nessa mesma casa escura onde agora repousas, entregaste-te a mim como um oceano no meu mar de braços mil e disseste

- o que tu fizeste, eu nunca teria sido capaz de fazer. Abraçado a ti com os meus braços mil, soluçaste, e foste tu, sozinha, quem naquela noite chorou a perda do meu avô.


Margarida Delgado


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Sunday, February 22

Estar melhor ou se um dia eu


- Hoje não

te apetece que te toque. Cheguei a tua casa, em busca do jantar que me prometeste e ainda não fizeste outra coisa que não seja afastares-te de mim. Tenho alguma praga impregnada no corpo e não me dei conta disso. De caçarola na mão, giras pela cozinha em círculos e, contrariamente ao que é normal, não me pedes que ponha a mesa, que leve os guardanapos, que vigie o refogado. Simplesmente

- Hoje não

te apetece que eu exista neste espaço que é teu, mas assumo como meu. Telefonaste à pressa, perguntando se queria ir jantar a tua casa e eu que até tinha coisas combinadas, temendo que precisasses que eu estivesse presente

(o teu avô está bem?)

larguei tudo o que tinha para me pôr ao volante. Estavas em casa, pois claro, e como sempre quando cheguei estavas em frente ao fogão. No entanto, quando vou para te abraçar e beijar o pescoço, perguntar-te

- tudo bem?,

percebo que

- hoje não

queres que eu esteja ali. Telefonaste-me porque querias estar sozinha, mas não só. Eu ainda digo

- que se passa

mas tu repetitiva, fazes a negativa da minha pergunta e segues mexendo o tacho para que a cebola e o tomate não se colem ao tacho.

- precisas de ajuda?

- quem te vir, até parece que costumas ajudar?

Em bom rigor, não costumo. Quando estás nos teus dias, rapidamente me afastas da cozinha e me empurras para a sala. Queres que eu tenha a menor influência possível no preparado. Tudo para que quando coloques o comer na mesa

(não é comer, é comida)

possas então perguntar retoricamente

- Está bom não está?

e eu responda

- está óptimo

ou se quero que venhas para cima de mim cobrar a resposta, diga

- podia estar melhor.

Exactamente como hoje. Podíamos estar melhor.


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Friday, February 20

Diálogo: A coisa mais bonita de se ouvir


- Sabes o que é realmente bonito de se ouvir? mesmo muito bonito?

- Diz

- Prometes que não gozas?

- Prometo, diz.

- A sério?

- Sério. Diz.

- A coisa mais bonita de se ouvir, mais fantástica, que nos faz sentir bem e em paz, sentindo comunhão e paixao, desejo em comum e partilha

- diz

- que nos explica porque viemos a este mundo e nos comprova que pertencemos a ele

- Desembucha

- que ao primeiro sopro nos mostra estar vivos, e que acima de tudo, somos importantes, pelo menos para alguém so-mo-lo, é...

- Diz, fala, fala de uma vez...

- tão só... em pequenas partículas de existência e ser

- diz diz

- de forma tão singela

- ...

- a respiração da outra pessoa ao nosso lado.


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Thursday, February 19

Assim nessa forma como?


Nos teus olhos de vidros quebrados, vi reflectido o meu coração despedaçado. Ao mesmo tempo, mirei uma estrela que morria no céu e percebi que aquele era o mesmo astro poluído que habitava os teus olhos em todos os dias que passei contigo. Longe dos tempos em que o meu corpo beijava o teu, respirando em sussurro cada poro dissemos

É melhor assim

e ficámos, lado a lado, olhando a poeira do tecto de abrir que arejava o teu carro nas noites e dias quentes que escaldavam a chapa preta do Peugeot que compraras a prestações. Recusaras o velho carro que o teu irmão te tentara impingira e com orgulho assinaste o crédito de quatro anos, prazo sobre o qual pretendias liquidar todo o valor em dívida. Naquele dia, antes de dizer é melhor assim, disseste

- Nem penses que fumas no meu carro,

porque eu que nunca antes em vez alguma fumara à tua frente, no último dia das nossas vidas, puxei cigarro atrás de cigarro.

(- Que bela imagem vou ficar de ti

- Tou-me a cagar para a imagem com que vais ficar de mim. A imagem que tinha a construir, já a erigira, acrescentei em pensamento.)

Mas mentira, houve uma vez que me viste fumar. Sabendo que trazia sempre no porta luvas do carro um maço, obrigaste-me a acender um cigarro à tua frente.

Acende, fuma um pouco para eu ver, quiseste tu meter-me à prova, num jogo a que estupidamente acedi, tendo eu já por certo o local certo onde tudo aquilo nos ia levar. Também quiseste saborear o sabor do tabaco e por isso pediste-me um cigarro, aliás o meu cigarro que timidamente esfumaçava em minhas mãos.

- Coff, coff, como és capaz de colocar isto à boca.

- Já me passaram coisas menos higiénicas pela língua, cedo, vulgar. Mas lanças um pequeno sorriso como quem diz

- Pateta. A tua inexperiência para segurar o pedaço de papel enrolado que queima entre os indicador e o maior faz-me sorrir, digo-te que

- Não é assim, e tu, humilde e derrotada sorris dizendo

- Oh, eu não sei.

- Também não queiras aprender, e dizendo isto tiro-te das mãos tão estranho objecto, lançando-o janela fora do carro.

- Nem penses que fumas no meu carro,

e eu pensando que não discodificava aquilo que dizias, apenas o monocórdico gesto de levar a mão ao bolso para resgatar o maço vermelho e branco. Abrir a caixa vermelha de cartão e em desespero retirar mais um cigarro, pois sei que vais repetir

É melhor assim

procuro no outro bolso o isqueiro para dar lume ao prego, e reclinar a cabeça para trás, libertando o fumo. A garganta ardendo, os pulmões ardendo, o fumo a sair por entre a boca e as narinas numa cena de cinema mal interpretado pelo actor barato que sou eu. Vais dizer

É melhor assim, e eu vou concordar contigo, ficando satisfeito por teres sido tu a materializar em palavras, de forma tão simples, o que dizíamos há já não sei quantos fins do mês, mas não assumíamos. É melhor assim, e eu volto a procurar os cigarros, depois o isqueiro para pegar fogo ao dia que se desenrolou no teu Peugeot preto, pago a prestações, após recusa da oferta do teu irmão mais velho. É melhor assim, e precisas já de legitimar-te. É melhor assim e eu perguntando-me se essa evolução seria profícua para ambos ou apenas para ti. É melhor assim e sei que tinhas já outro namorado, dois três, uma dúzia

(Achas sinceramente que eu tenho problemas em arranjar namorado? Achas?)

É melhor assim, é melhor assim, é melhor assim:

e caramba! pára que já ouvi, e os meus próprios dedos são já combustão do cigarro. Pára com isso que não vês que estou a sofrer; tu estás aí repetindo que é a melhor das forma possíveis e nem me olhas nos olhos para veres que neles apenas resta a dor. Esta dor que se mantém, persiste, se alimenta do meu corpo. A mesma dor que ficou para além da tua presença, imaginação e memória. Altiva, distante, protegida, nem me olhas nos olhos e impávida continuas dizendo que é melhor assim.

Mas assim como??


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Sunday, February 15

Flor


Queria passar contigo esta noite, minha flor. Ter-te junto ao peito e inalar o teu cheiro, que não sei se é signo de desejo, se de saudade ou descoberta. Queria sentir-te pela raíz e acariciar cada pétala, catalogar cada uma delas e dar-lhes o meu nome em latim. Registar a patente para que todos saibam que espécie de homem sou. Encontrar-me em teu corpo. Fazer da tua beleza a minha imortalidade nas gerações que hão-de vir.


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Saturday, February 14

Frases e respostas sem resposta


De todas as vezes que disse

Adoro-te

esperei ouvir a raíz principal da palavra, precedida de um mecânico

também te

como se de um instinto se tratasse e as três palavras fossem apenas uma. A cada frase minha, havia uma outra resposta já previamente planeada, como se na tua cabeça houvesse uma repartição de automatismos padrão que ao estímulo x, esta ripostava com a reacção y. Ao fim de aquele tempo todo, as frases e respostas padrão eram já tantas que podíamos escrever livros inteiros com as mesmas ou formular equações com incógnitas quase tão grandes como as nossas vidas. E isto para dizer que os nossos dias tinham entrado já em auto gestão há tanto tempo e com tanta força que pouco ou nenhum espaço havia para o improviso, para ti e para mim, para a vida que se exigia a quem se gostava. Mais parecia que o correcto era dizer que não se gostava. Por isso quando me dizias algo que não estava à espera ou por distracção me levavas para caminhos que eu não dominava, ficava sempre à nora, esperando que lançasses mais uma resposta padrão para que eu estivesse certo que eras tu que estava à minha frente e não a pessoa que sempre defendeste que existira antes de mim. Dizias

agora

e eu que cedo me habituei a que contigo nunca havia o momento imediato, ficava parado, pensando se o que querias dizer era mesmo

agora

ou se simplesmente procuravas testar-me,

(talvez)

na esperança vã que eu me afastasse. Porque a minha presença era incomodativa, porque eu era o travão para que apenas existisses tu. Para que tu apenas te sentisses a ti e como tal pudesses agir e reagir apenas em relação a ti. Eu era o que te impedia de tu própria te transformares na repartição de automatismos, que apenas se defendia a si, sem importância a quem. Eu era a barreira para que não te transformasses num bicho egoísta e egocêntrico que apenas se via a si, em que todas as perspectivas e caminhos iam dar a ti: esse teu ser mutilado por mil e uma memórias e acontecimentos que te tinham imprimido chagas que não deixavas cicatrizar e que mostravas a todos quantos tivessem paciência para as ver, espécie de troféus de guerra ou medalhas invocativas de um tempo em que estiveras debaixo de fogo.

A mim, restava-me tentar perceber que tipo fogo era esse e porque é que, ao fim de tanto e tanto tempo, ainda não o afastaras.


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Thursday, February 12

Carta a mim


Porto, 8 de Fevereiro de 2004

Eu sabia: algo me dizia: não vás

ou melhor

vai: mas limita-te às razões profissionais porque ali te deslocas. Esquece que estás na terra mãe de Mónica e, estando despachado dos teus afazeres, pira-te o mais depressa que consigas para Lisboa, onde te sentes em casa. Que ideia estúpida essa de marcares uma hora de regresso a coincidir com o último comboio a haver.

Sabias ao que vinhas, mas mesmo assim essa tua estúpida fixação de fazeres o que te vai na real gana uma vez mais traz-te dissabores e emperra-te a já por si pouca inteligência que tens, tudo ao abrigo dessa frágil desculpa de

Sentir-me-ia pior se não o fizesse, se de outra forma fosse.

Eu bem que pensei: vais lá pelas razões profissionais a que estás obrigado e voltas. Correndo. Mas teimoso e desafiador tinhas que te passear pela cidade. Tinhas de ir até à Ribeira, calcorreares os Aliados como a avenida da liberdade só para sentires o pânico, saborear a leve, ténue quase impossível,

(- És doente sabias?),

remota possibilidade de ela poder estar a ver-te, cruzando as mesmas ruas que tu.

Não te queixes por favor: poupa-me, aceita as coisas em seus pares – não venhas com essa história de te sentires em pânico, quando na Campanhã

(a Apeadeiro primeira a fazer-te companhia),

leste


18h21
Destino xx
Paragem em todas as estações e apeadeiro


e ficaste em pânico. Pára com essa comiserativa

(que tu chamas romântica)

forma de encarar a vida e enfrenta de uma vez por todas

(- És doente sabias?)

que tudo tem um fim, e esta história já conheceu o seu há muito: sabias a tua situação ali, poderias ter-te despachado em três quatro horas, não precisavas de ir até à Ribeira, sabias que era desnecessário andares pelos Aliados como se fosse a avenida da liberdade e mesmo assim os olhos sempre a procurá-la

(- És doente sabias?)

em cada olhar que lançavas ao mundo era o mesmo mundo que querias ver: Mónica.

Agora estás, estamos, aqui sentados na sala de espera e entre uma olhadela ao Apeadeiro e à rapariga que a teu lado se senta

(de rosto fino e lábios que imaginas doces, o cabelo curtinho bem penteado, a postura de uma senhora lendo a Visão)

ouves alguém, curvada pelo saco de alças que transporta gritar

- Ruizinhos, quatro – cinquenta cêntimos, pilhas para o rádio, corta unhas, chocolates, baralhos de cartas,

e só aí, só aí nessa voz e pronúncia que te é tão familiar e tão doce, tu percebes que não estás em casa. Que queres voltar a sentir a segurança que durante todo o dia não te visitou. Queres voltar a andar descansado e a seres tu, continuar a ser um estranho sim, mas em casa própria.

Porque em cada passo que dás, em cada cigarro que fumas e escondes dela, em cada rua que cruzas, um Peugeot que passa, tu vês Mónica. De óculos escuros tipo mosca, afundada no banco do carro: mascando pastilha elástica e ouvindo a RFM.


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Wednesday, February 11

À minha Mãe(*)


Por entre o emaranhado de jornais antigos, lenços de papel perdidos (ainda do tempo em que vertias lágrimas no meu carro), postals free, muitos, maços de tabaco vazios, chaves de casa (das quais já fiz pelo menos três cópias), recibos de portagem, facturas de gasolina, almoços e jantares, poeira e pedaços de lama ressequidos que mancham os tapetes, óculos de sol dispostos ao abandono no porta luvas juntamente com o baralho de cartas, o Cristo de madeira cuja cruz se solta do rosário, as cassetes de música que não ouço, a minha mãe, encontrou, revelado ao mundo de novo, o meu Moleskine.

(Obrigado Mãe)

As elegias e as lamúrias seguem de seguida.

(*)Título gentilmente cedido pelo amigo Viegas


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Tuesday, February 10

Triste triste triste


Mónica: perdi hoje o meu Moleskine.

Ali, escrevi muitos dos posts que aqui publiquei; ali, cresceu grande parte do romance, ali semeei ideias que ganharam corpo ao teclado. Estou triste triste triste. Muito mais que uma peça bonita, fora a peça que me ofereceras para eu desenvolver o meu potencial, escreveste. Muito mais que uma peça bonita, foi um dos raros momentos em que acreditei que acreditavas em mim. Era isso que significava o meu Moleskine. Fui abalroado pelo acaso e sinto-me tentado (muito) a desistir de aqui vir em peregrinação escrever-te. Não estranhes pois se tão cedo não voltar.


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Sunday, February 8

Regresso ao passado que não existias


Mónica, regressei a noite passada aos tempos em que não existias. Um banal como tantos outros encontros de antigos estudantes que um dia foram colegas encontrou-se ali para os lados do Cais do Sodré. Alguns com sorrisos presos ao rosto como uma máscara, outros engravatados, outros com namoradas novas, outros até fumando: aliás, houve fumo a mais naquela sala. Onde antes existiam livros debaixo dos braços, agora subsistiam cigarros empunhados, esfumaçados na pressa de uma saudade notada e relembrada.

Naturalmente, revi-me. Recordei a minha existência de então. Trabalhando quarenta e tal horas por semana, faltava às aulas que achava que não deveria ir, fazia aquilo que mais me apetecia fazer – ganhava dinheiro para comprar livros, ir ao teatro, ao cinema. Nessa altura, não me dava conta da sorte que tinha, do quão irresponsável podia ser e não raramente esquecia todos as coisas boas que constituíam a minha vida, tal qual tu que frequentemente esquecias os sorrisos que entravam pela tua vida a dentro; o meu sorriso, disponível à distância pequena de um toque, de um outro sorriso, de um inexpressivo gesto que tanto trabalho te dava a cultivar só para manteres essa distância de medo, que sempre assumiste de como sendo de respeito.

Toda aquela vida que recordámos passou-se há poucos anos mas parecíamos velhos, recordando as tropelias de juventude. Já não somos quem ali estava, eu já não sou o mesmo miúdo sempre de sacola ao ombros, com livros muitos livros, quase nenhum dedicado as ciências políticas e sociais e antropológicas que estudava. Comigo andavam sempre um dois livros, bem certo. Mas um Vergílio um Eugénio, esses eram aqueles com os quais eu sentia que aprendia algo. Através da palavra escrita tentava olhar o mundo dos outros, aspirava ser capaz de pesar cada olhar pelo olhar de um outro que não eu.

Tu ainda não existias; estava ainda para existir a primeira vez que falámos. Mas logo nessa primeira vez percebi que serias importante. Provavelmente acharás isso uma patetice mas soube que dali a dois dias estaria a beijar-te, que minutos antes desse momento estarias aflita, com a cabeça pousada no meu colo. Acharás uma patetice, mas dezenas de minutos antes de te beijar, pensei em fazê-lo, conduzi o meu discurso para te dizer que já esquecera a minha antiga namorada pelo que havia uma auto estrada para tu lavrares em direcção a mim. Acharás uma patetice, mas desde o primeiro segundo que te vi que pensei

Eu consigo

Que não obstante seres linda, eu conseguiria profanar-te com a minha imperfeição. Acharás uma patetice, mas achei natural ficares de beicinho nos dias que se seguiram. A pressa de me ligar quando te deixei e eu a deixar-me estar, vendo o telemóvel piscar Mónica Mónica. Atender?

Recordo-me de estar deitado no chão da sala, o televisor ligado a fazer barulho, o telemóvel vibrando na alcatifa e eu a não querer atender. Uma mensagem mais tarde, fazendo-me dificil, confessava que estava com o telemóvel desligado e que não vira a chamada. Que me desculpasses.

Meses mais tarde e ainda te dizia que não ouvira a chamada; meses mais tarde, querendo embelezar a situação, dizia que nunca esperara que nos beijássemos logo e ficássemos

(palavra horrível, dizias)

namorados, o que mesmo é dizer mandar mensagem antes de dormir, telefonemas vários ao longo do dia, apesar das redes diferentes; a partilha dos dias numa inveja doentia. Meses mais tarde e ainda me custava admitir as mentiras que mais não quis que fossem motivos para teres mais vontade de um dia me vir a amar.


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Saturday, February 7

Céu do mundo


A tua gargalhada é oxigénio para mim. Foi desta patética forma que um dia, mais envolvido contigo, na penumbra do teu quarto situado no nono andar de um recente bairro para os lados da Bela Vista eu comecei a nossa conversa. Como já calculava, riste na minha cara. E eu, ao invés, de sentir o meu peito encher-se de oxigénio, fiquei vexado com as palavras que tu troçavas. Mais um pouco

(paneleirices de artista)

e tu, para que me calasse, tão vexada quanto eu por te ter olhado nos olhos e ter materializado em palavras o sopro que em mim arejava por dentro, quiseste levantar-te de onde estavas. Disseste

- vou fazer alguma coisa quente para nós

mas eu, ao invés de aceitar a sugestão, ou caminhar com os olhos em modo radar pelas paredes e para os candeeiros da divisão, para as estrelinhas fluorescentes que indicavam o caminho até ao corredor da casa, voltei a olhar-te nos olhos e repeti

- A tua gargalhada é oxigénio para mim.

fazendo com que o teu olhar assumisse o meu modo radar e caminhasse pelo meio do escuro, os vultos pesados dos armários, a sombra reflectida no espelho grande, ladeado por duas estrelinhas fluorescentes. A tua gargalhada é oxigénio para mim. E o teu corpo dançando no meu, querendo fugir dali, a tua boca dando-se à minha para que me distraísse e não voltasse a repetir palavra que fosse. A tua boca colada à minha, os teus olhos anormalmente abertos durante o beijo para analisar a minha reacção. E eu querendo repetir o paradigma que tu negavas. Os teus braços a quererem-se afastar dos meus, o pânico estampado nos teus gestos, e tu dizendo pára. Eu voltando a olhar-te nos olhos, os teus olhos castanhos pequeninos em irregular movimento não se querendo fixar nos meus, mesmo na penumbra, e eu repetindo. Tu já quase violenta e eu querendo repetir, fazer de um paradigma lei e tu incomodada querendo dar por terminada ali a conversa

(estás com os copos).

A cada palavra que repito, sinto que te distancias, a cada sílaba que tento formular, tu pareces antever o princípio de alguma desgraça pronta para acontecer.

Mas resignada, como que desistindo, deixas-te ficar. E eu repito repito repito

A tua gargalhada é oxigénio para mim
A tua gargalhada é oxigénio para mim
A tua gargalhada é oxigénio para mim
A tua gargalhada é oxigénio para mim

e tu ausente. Perdida nos meus braços que te seguram àquele espaço

A tua gargalhada é oxigénio para mim e tu mutilada, aguardando pelo momento que me vou calar

A tua gargalhada é oxigénio para mim e tu com as bochechas rubras querendo explodir

A tua gargalhada é oxigénio para mim e os teus olhos odiando-me

A tua gargalhada é oxigénio para mim e eu calado, enfim: exausto.

Os teus braços já não se tentam soltar de mim, o teu olhar está como que morto no meu e eu observo-te, esperando um sinal de vida. Como que dizendo já acabaste, soltas-te de mim com violência, o olhar desvia-se do meu e foges. Ao contornar a porta com acesso ao corredor, sem me olhar, em passos seguros e decididos, consciente que estás prestes a magoar-me e eu que me prepare, lanças palavras como lanças

(continuas assim e ainda te vais dar mal)

e eu, resignado, com a cabeça pousada na almofada, encostando as costas ao colchão para controlar o embate, não voltei a abrir a boca durante o resto da noite. Nem mesmo para te dizer adeus, muito menos para te confessar que me doía o coração e estava a precisar da bomba para respirar. Tu, de qualquer das formas, estavas longe.


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Thursday, February 5

Caderno de poemas


Mónica, tenho sentido a tua ausência nas palavras que não te escrevo. Trabalho, muito, distracções várias, preocupações mil que me afastam de ti. Nas palavras quero dizer. Em pensamento, tu a interromperes-me as manhãs as tardes as noites. As mesmas manhãs tardes noites que não te escrevo. Sinto-te na ausência do que não digo. Preciso de escrever-te. Repito: preciso de escrever-te. Esta é apenas mais uma estranha e patética forma de me sentir próximo de ti e me sentir novamente homem.

Na altura em que acordavas ao meu lado, por vezes achei que tinha tudo por garantido e descurei de elaborar versos com as nossas vidas. Mesmo que não os apreciasses e optasses por dar mais atenção à necrologia dos jornais que não lias. Nessa altura, achava que dizer

- adoro-te

era o mesmo que escrever-te um caderno inteiro só com poemas. Nessas alturas,

- adoro-te

era suficiente para ti, pois nunca aceitarias nada que tivesse maior extensão que aquele microsegundo que me ouvias e fingias acreditar. Por vezes, abraçados à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, respondias na inevitável repetição de

- também te adoro,

e o meu peito, buscando forças para acreditar no que dizias, sorria. Dali a um pouco, deixar-te-ia. Iria à minha vida e tu continuarias na tua. Os versos que antes te escrevera, tu irias esquecê-los, ao passo que eu optava por recordá-los, aspirando ter oportunidade de os reproduzir numa outra noite em que me dissesses

- adoro-te

e eu, abraçado à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, pudesse responder-te na inevitável repetição de

- também te adoro.

Sabíamos que eram estas pequenas pequenas verdades que nos davam forças para continuar a nossa grande mentira.


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Sunday, February 1

Por muito tempo que passe


Porque por muito tempo que passe, hei-de sempre imaginar-te nos meus braços, feitos pequenos para a vida que abraçavam. Ao olhar dos outros eu era o puto, o imberbe com menos dois anos que tu; entre nós, na intimidade das palavras dos olhares dos gestos, dizias que

- eu sou a menina da relação e tu o braço

(pilar, digo eu)

que sustenta esta relação. Acomodada nos meus braços, deitada entre o banco do passageiro e o meu corpo, pousavas a cabeça junto ao vidro do carro e eu abarcava-te entre os meus braços; abraçava-te com tanto querer como se não quisesse mais nada na vida e aspirava o teu perfume caríssimo que aplicavas estrategicamente em sete ou oito pontos do teu corpo, como num estranho ritual. Dali a um momento, não necessariamente muito longo, estarias a chorar e a minha camisa, os pacotes de lenços perdidos no tablier, os meus lábios, as minhas mãos ficariam encharcados de ti. Choravas, os teus olhos brilhavam no escuro, dizias

- Não consigo, não consigo, quero mas não consigo

- Shhhh... não digas nada, eu sei, sabia que não conseguias. Sempre o soubemos; mas não foi por isso que deixámos de arriscar. Pouco munidos das regras de um jogo que entrámos a perder, preenchemos os dias um do outro numa agenda demasiadamente exigente para a predisposição e conjuntura que vivíamos. Tu eras a suposta mulher com sonhos de adulta e eu era o miúdo quasi doutor que me licenciava com a tua presença. Dois dias depois de dizeres

- sim, disseste não e então choraste pela primeira vez. E eu pela igual vez abracei as tuas lágrimas e as tuas palavras, sorvi-as uma a uma, os lenços encharcaram-se e foram deixados ao abandono sobre os tapetes plásticos e sujos e negros do carro. Era aquele o primeiro dia do fim, já depois da feira do livro quando nos passeámos por entre o Parque abraçando-nos, beijando-nos, degustando-nos um ao outro. Recordo-me de me encostar a um tronco de uma árvore e ter-te puxado para mim,

(Anda cá)

beijando-te com a doçura do teu sorriso em mim. Lembro-me de me teres mordido o lábio e teres sorrido, os teus olhos terem perfurado os meus pensamentos. Eu sorri e sorri. Tu sorriste e afastaste-te como dizendo

vem.

Estávamos no topo do Parque e correste, correste. Eu persegui-te, por entre as pessoas com sacos e livros; os livreiros das suas gaiolas mirando-nos; os polícias imaginando o assalto do meu coração, que fugia contigo, ao pulsar do teu. Tu cada vez mais rápido, o perigo aumentando, o meu coração pedindo que não o deixasse, para eu não desistir.

A tua gargalhada a ser levada pelo vento, o teu sorriso fixado no oxigénio, feliz.

De quando em vez, olhavas para trás e vendo-me correndo atrás de ti, continuavas em frente, passando os obstáculos: as pessoas, os livros, os expositores, as crianças de colo e de carrinho, a noite fria que caía e descia sobre os nossos ombros. Como que dizias

Vem

e por isso eu corria também, corria sempre

sempre

sempre

sempre. Até não haver noite, nem disposição, nem pulmão, nem solas de sapato que aguentassem. Pela noite fora, todas as outras noites, todos os outros dias a haver.


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