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Thursday, January 29

Em nome da terra


Gosto de ti. Assim desta incompreensível maníaco obsessiva forma, de cariz depressivo com contornos de lucidez e parvoíce estupido-inocente meta violenta. Gosto de ti hoje, como gostava antes e como vou gostar sempre contigo dentro de mim, a sorrir – toda gente a ver-me sorrir na rua sozinho, sem que percebam porquê. Gosto de ti, como uma doença que não pedi mas a que me habituei como à cor do meu cabelo no verão e às borbulhas que na adolescência me esfolaram o rosto – a tal borbulha gigante com pedaço de carne, como o meu irmão António descrevia.

Gosto de ti, sem conseguir explicar porque ainda gosto e porque me recuso a deixar de fazê-lo. Diariamente mutilo-me com a memória de ti, mas não é por isso que permito que deixes de sorrir dentro de mim – toda gente a ver-me sorrir na rua sozinho, sem que percebam porquê. Recordo o primeiro dia que falei contigo e sorrio; quando falámos tête a tête e sorrio; o primeiro beijo – novo sorriso. As minhas mãos nervosas no teu corpo rectilíneo de doçura encoberta pelo medo que me tinhas: também eu uma doença a que te habituaste como a mancha entre os olhos, tonalidade que se acentuava com a exposição ao sol; como o chumbo que te cobria quase todos os dentes da tua boca; como a tua perfeição intrínseca em cada sacrílega aparição.

Gosto de ti, como sempre desejei vir a gostar de alguém: esta maniaco obsessiva forma, de cariz depressivo com contornos de lucidez e parvoíce estupido-inocente meta violenta a que me habituei a cultivar e expor perante todos como uma chaga encoberta pelas roupas deixadas ao abandono sobre o corpo, sedento do teu impressionante toque, embuído de trejeitos secos e sabor a sexo. Gosto de ti da melhor forma que me lembro de gostar e julgo ser possível de gostar: como um medo, uma estúpida interrogação esculpida no dolente estado de sítio em que fica a minha alma, quando o teu nome é escutado. Mónica: à perfeição do teu segredo que é só meu e que não estou disposto a abdicar. Mónica, minha doença incurável, minha imortalidade, minha desgraça, minha redenção, pecado que não quero absolvição: tal qual não escondo que tive borbulhas na adolescência, que o meu cabelo muda de cor no verão. Não quero parar de dizer que gosto de ti. Que gostarei sempre. E que o meu coração será sempre o teu, o teu uma memória no meu.


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Wednesday, January 28

Vai ficar tudo bem


Disseste

- daquela vida só quero que restes tu, e eu comovi-me com as tuas palavras. Pois sabia que aquela vida que tanto renegavas era a mesma em que eu timidamente existia. De tudo o que acontecera, passara e pensaras, eu era a parte que escolheras para estar para sempre contigo.

Nem colocações, nem prémios, nem alegrias – eu. Eu na minha tímida e frágil pessoa a ocupar um espaço que designaras para mim, ignorando outros acontecimentos que eu sempre entendi como superiores.

Pálido e absorto, pensei

com orgulho

- Eu?

E tu convicta no que afirmavas, perguntavas

- ouviste?

Sim, ouvira e digeria a informação que o meu cérebro se esforçava por processar como verdadeira. Lembrei-me de em seguida teres-te soltado num pranto que abracei e eu disse-te

- vai ficar tudo bem

o que mesmo era saber e dizer que a tua vida ia continuar, a minha também: caminhos que não se cruzariam – nunca mais. Mas tu nunca irias querer esquecer-me.


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Triste, a espera


Caminho sozinho pela rua, agora sem gente. Os residentes estão já nas suas casas, estupidamente felizes – jantando ou sentados no sofá a ver televisão. Aquela é a mesma rua, (iluminada por candeeiros mortiços), onde já viveste um dia. A rua com as as mesmas poças de água, que já antes existiam. O que melhor recordo desta rua é o cheiro do alcatrão molhado e os vidros da paragem embaciados e salpicados pela chuva miudinha de que fugíamos. Naquela mesma rua, dei-te a mão e pensei

- Amo-te, mas

apreensivo, disse

- gosto muito de ti. Comedida como sempre, sorriste e não abriste a boca. Deixaste-me na mão com as minhas palavras simples que ensaiei diferentes, mas saíram como saíram

puras, em estado bruto

como o meu coração calejado pelos momentos que partilhei

(vivi)

contigo – agonizante experiência com hora de partida marcada e que sempre quis a dois e tu concebeste desde o início como singular e estéril.

Estou farto de me lamentar. Choramingar por uma recordação que não tenho ou digo não ter. Também eu por vezes sou tu, descarrego vidas no sentido inverso da vida que me ofereceste e eu te proporcionei. Sendo rigoroso, continuo a achar que não estávamos preparados para a perfeição do outro. Tivessem as nossas vidas se cruzado noutras coordenadas de espaço e tempo e, a esta altura, talvez estivessemos ocupados em escolher a cor dos cortinados da sala. Foste a primeira que pensei

- Podias ser tu

e eu acho que isto, pieguice ou não, marca qualquer um.


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Sunday, January 25

O teu passado não tem impurezas


Descarregas memórias do teu passado como quem pede desejos. Deixas que a tristeza se acometa de ti e aguardas até que a dor passe. esperas, ficas sozinha: introspectiva, resistes até que o vazio seja preenchido por alguma memória. Essa memória, por comparação com a contemporaniedade, está sempre num patamar superior. Tudo é perfeito quando recordado. As incongruências e os pecados esquecidos, as arestas frias limadas pela tua mania das grandezas. Na tua cabeça, o passado não tem impurezas, é incólume e imediato, está ali à mão de um pensamento.


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Thursday, January 22

Férias de Verão


Estava a trabalhar na rua do Século e tu vieste desde o cume do país até mim. Tinham passado as férias de verão e foras a casa recuperar energias e memórias.

Chegaste com frescura na voz e, em resposta ao toque que deste para o telemóvel, alertando-me que lá em baixo me esperavas, deixei o e-mail que estava a escrever para descer dois a dois, três a três, os degraus que me separavam de ti.

Lá em baixo, esperavas-me, de sorriso aberto. Abriste-me os braços meigos e deixámo-nos estar. Meio não sei se um minuto. À porta do meu trabalho, quem passava via-nos estupidamente comovidos com a presença do outro: é aquele o primeiro o primeiro encontro após muitos anos; em bom rigor, passara apenas duas semanas. Vinhas do Gerês

(um dia, terei ali um chalet)

de ao pé das tuas amigas, da tua família, das memórias que te permitiam dizer

- esta sou eu

e em menos de três horas percorreras os trezentos e tal quilómetros que nos separavam com o pé sempre no acelerador; a minha presença, o mundo a que agora te juntavas e ao qual eu pertencia

(a solidão, as aulas, os alunos, a casa nova por encontrar, a colocação que não chegava)

apenas contribuía para destruir o equilíbrio que horas antes se apresentava aos teus olhos. Pelo menos, foi sempre assim que falaste das tuas raízes.

No entanto, neste momento, já nada sei: por vezes, parecia que tudo que estivesse para além de mim continha uma perfeição que apenas tinha como função mostrar-me a minha imperfeição; a minha falta de aptidão e jeito e tacto, a minha propensão para ser burgesso e não saber distinguir as cores das paredes, quanto mais as intensidades dos teus medos. Os meus medos: em relação a ti.


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Tuesday, January 20

Fala comigo


Finalmente adquiri o hable com ella

(em saldos, imagina)

e já só consigo antever mais uma sessão de cinema em tua casa. Iremos para tua casa juntos: ou talvez tu já lá estejas quando eu chegar. Vou fazer da tua casa, como tem sido apanágio, a minha casa. Sim, claro que levo o computador, roubo as colunas à agência e instalamos tudo de novo, como se a primeira vez fosse. Deitados na cama, colocamos a tão resistente quanto colorida caixa de cartão que tens junto à cómoda; sobre a mesma, pousamos o computador. Eu abro o laptop, instalo as colunas, ligo as ficha das colunas à tomada. E aproximamo-nos, juntamo-nos: abraço-te. Dás-me um beijo no pescoço, inspiras-me como se o oxigénio te faltasse. Os dois a olhar para o monitor minúsculo: é aquela a nossa sala de cinema preferida.

Nela, já rimos, já chorámos, já discutimos - tu já cantaste: eu só ouvi; já fizemos amor tantas quanto suficientes vezes para que esses momentos nos tenham deixado marcas para o resto das nossas vidas. Na pele, na carne: os nossos próximos amantes, vergados, hão-de vê-las e hão-de chorar tristes e envergonhados. Sós, hão-de corroborar a nossa displicência e ausência de virgindade.


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Monday, January 19

Onde tudo vai morrendo


Mónica, queria ser idoso para poder recordar estes dias com relatividade. Uma capital minúscula de um país distante que não conheço. Sinto a cada hora que passa a ausência de não estar rodeado de filhos e netos, articulações a ressentirem-se – a visão cada vez mais afectada. Aguardo o dia em que olharei para estas imagens, significações medidas no compasso do tempo, e elas existirão apenas. palavras. Um dia virá: lerei estas páginas como aquilo que desejarei que o sejam: o registo fenomenológico de um tempo que te senti, assumido e abandonado. talvez. Sei que só nessa altura poderei gozar de uma posição anódina que me coíba de avaliar o peso de cada uma das palavras

chagas que lavram em meu peito.


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Sunday, January 18

Vírus de ti


Agora já nem deves querer saber que sou eu neste momento. Pertenço a um pedaço de ti que quiseste eliminar dos teus dias. Disseste

- daquele tempo só quero que restes tu

mas em boa verdade, nem eu pareço ter força para persistir à tua selectiva e hiperbolizante memória, com tendência para escurecer os momentos menos bons e deusificar os bons. Já terás apagado do chip do teu telemóvel o meu número e só podes esperar que o mesmo fusível se queime também na tua cabeça. Transformei-me numa espécie de vírus que corrompe o teu sistema. Procuras aleatoriamente nos rostos que não conheces uma vacina que te faça viver sem olhar a quem. Várias vezes apetecer-te-á fazer shut down; premir escape aos momentos que enfrentas e pedir ajuda num dos éfes do teclado. Queres formatar o disco. Da minha parte, ocupo-me a diariamente fazer back up’s do que te conheci para mais tarde recordar. Porque sim, a convivência diária contigo, tu no meu desktop ali a surgir em janelas pop up, leva-me para baixo. Desaparece de uma vez, peço-te.

Ou tenho de atirar o computador pela janela fora?


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Saturday, January 17

Fim?


Ao cruzar-me pela primeira vez com este poema, (obrigado Vânia), achei que não poderia existir melhor forma de encerrar as cartas que te destinava. On line, pelo menos. No entanto, ao lê-lo uma outra vez (depois de outra e outra e outra, e), não consigo resistir, como outras vezes resisti, a disponibilizá-lo aqui. Perdoa-me a fraqueza.

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Adeus, Eugénio de Andrade


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Friday, January 16

Texto


Mónica

O dia em que tudo acabou coincidiu com o dia em que soube que fora admitido nas aulas de Escrita criativa do JLP. Telefonei-te com alegria na voz para celebrar e acabámos a discutir como nunca antes: magoaste-me e eu não te magoei menos.

Ontem, numa destas aulas, este propôs que escrevêssemos um texto em jeito de desgarrada. Sendo que o seu contributo seria sempre o de dar um rumo diferente ao texto daquele que até aí levava.

Comecei a escrever-te uma carta e a certa altura passei-lhe o texto. Repeti o processo três vezes. Este não teve mais de um minuto para responder a cada uma das minhas provocações, atarefado que estava em igualmente dar resposta aos textos dos restantes alunos.

O texto que abaixo reproduzo é o produto dessa experiência. Vai tal qual nos saiu: puro.

«
Disseste

- É melhor saíres daqui

e eu, sentindo-me preso a ti, quis ficar. Os teus gestos e o teu olhar encaminhavam-me em direcção à porta e eu apeteceu-me voltar a sentar no sofá da sala, mas continuei o meu caminho. Aquela rua não era a mesma em que te conheci. Os candeeiros, mortiços, explicavam-me que há muito aquele espaço deixara de ser nosso. No lugar dessa recordação, dois namorados diziam

- Amo-te

e eu senti que o abandono me acompanharia pela noite dentro. Na minha cabeça, o lugar onde antes repousavas, era agora ocupado pelo meu vazio. Enquanto caminhava, cruzei-me com um olhar que jamais poderei esquecer.

Uma mulher de aspecto franzino oferecia-me a sua compaixão em pequenos tragos de sorriso, amarelecidos pelo tempo. Ela disse

- boa noite, e eu, automático e educado, devolvi um

- boa noite, esperando ouvir

- Está bem?, enquanto o seu olhar me retinha a atenção que minutos antes eu te dedicava em exclusivo e sem concessões a ti.

Perguntou-me a idade. Respondi que estava na casa dos setenta. Ambos sabíamos que era demasiado velho. A verdade é que eu envelhecera desde o dia chuvoso, em que abrigados sob uma varanda daquela rua, eu dissera

- Amo-te

e pela primeira vez, acreditei que ficaríamos juntos. Lembro-me de ter pensado: para sempre.


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Thursday, January 15

Invocação epistolográfica da memória


Escrevo-te agora, como se reescrevesse, todas as cartas que não te mostrei em quinze meses. Indeciso de se apreciarias ou não o gesto, não raramente me coibía de mostrar-te aquilo que rabiscava: guardanapos de papel e de café, folhas pequenas, grandes, grossas e finas, amarelecidas pelo tempo. Maços de tabaco, espaços livres em jornais, versos de fotografias. Tenho milhares de restos de ti como estes em caixas de cartão, esperando uma leitura breve da tua parte. No entanto, neste momento só me apetece queimar cada um dos papéis, como queimo os dias que passei contigo.

Contudo, naquela altura, todas as superfícies serviam para materializar aquilo que julgava ser o amor que te sentia. Agora percebo que era só dependência. Mas o amor, infelizmente, também é isso. Uma estúpida e feliz dependência a que nos submetemos, tentando com isso obter o céu. Recordo-de uma entrevista ao Miguel Portas, num daqueles estúpidos inquéritos de verão no DN em que este, quando confrontado com a questão de quantas vezes já dissera amo-te só para ter um pouco de sexo, ele respondeu com outra pergunta, argumentando que a inversa era bem melhor: quantas vezes já não dissemos sexo só para termos um pouco de amor?

E aí, o amor não parece passar de um comodismo básico. Não é o amor que nos move, é a solidão. Ou o medo dela. É a tristeza do pensamento de um dia ficarmos velhos e não termos com quem partilhar os cabelos brancos. Não é o foder que impele o homem a se juntar com outrém. É o querer ter alguém para cobrir o corpo com um só cobertor em frente ao televisor e ficar ali. Sossegados. A ver a vida passar. Mas juntos.

E assim estupidamente felizes.


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Tuesday, January 13

Quase amargura

© margarida delgado



O dia parece amanhecer cedo e eu só consigo ter saudades de te dedicar poemas estúpidos. Quero evidenciar-te em palavras simples, que possam retratar-te da forma que julgo que existes. Apenas dessa forma poderei permitir que sucumbas em meu peito.

Imagino essa concha pequenina a que violentamente te acomodaste - o teu dia a dia partilhado a zero e sorvido em pequenos tragos para que a imensidão da vida não te anule. Imagino-te à luz finita de um candeeiro ardente: sedenta por nascer, fechada nessa concha a que chamaste de vida, tua vivência e tragédia, pequenina, a tal armadura sobre a qual adormeceste e quiseste morrer, tua doce segurança confortável: e isenta de perigos. Ou vida.



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Sunday, January 11

Do impensável


Mónica

Há três dias que preparo este texto. Tem-me custado colocar em palavras o agradecimento ao amigo que me deixaste. Desprevenido, dei por mim numa papelaria de um hipermercado com um estúpido sorriso a bailar-me nos olhos. Página 26 da Magazine Artes e este dedica-me um texto. Em letras tamanho XXL para que não restem dúvidas.

Das trinta e quatro cópias que fiz da crónica ;), prendi uma com alfinetes na ilha onde trabalho. Os olhos claros do autor perscutam cada passo do meu trabalho. (Continuo a dizer que pareces o Mia Couto). Por baixo, uma ilustração à medida do texto (bonita) e na folha ao lado a homenagem, sentida como grande. Abaixo a carta. Se for possível, mais tarde partilharei convosco essas linhas. Mesmo porque já era tempo dos peregrinos que aqui se deslocam terem acesso a um pedaço de boa prosa.

Já no dia anterior telefonaras a alertar-me Jorge, perguntando se já comprara o número deste mês. Arriscavas então um

- Espero que não fiques chateado

e agora, vendo a homenagem, pergunto-me Chateado, como? Mais não fosse, há muito que me habituei a valorizar as acções pelas intenções e não pela forma como as sentimos.

Agradecido estou pois claro que prémios destes não chegam todos os dias. Aos leitores que possam ter sido induzidos pela boa prosa do poeta até a este site, as minhas desculpas. Melhor mesmo ficarem-se pela Carta a Mónica da revista, essa sim um verdadeiro pedaço de literatura. O endereço deixado no final do texto, cujos parágrafos sem problema poderiam ser cada um deles uma carta, são apenas fruto da grande generosidade do autor.

Obrigado, Jorge. Um abraço.

PS: Dito isto Mónica, se alguma vez tiver dúvidas se foi bom conhecer-te, que preencheste uma parte boa da minha vida, bastar-me-á recordar a amizade que me deste a conhecer e, aí, saberei que valeu a pena. Obrigado também a ti.


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Saturday, January 10

Os meus sonhos perdidos a teus lábios


Mascavas nervosamente pastilha elástica e rebentavas balões, quais meus sonhos perdidos a teus lábios, lançando aroma de morango sobre o meu rosto. Vieras naquele dia da estação de Santa Apolónia, onde te despediras uma última vez do teu irmão e sorrias. Um sorriso que era uma linha de contornos imperfeitos que se comovia em espasmos suaves e leves de doçura. Estavas feliz: estranhamente sentias-te bem e em paz com o mundo. O Pedro viera visitar-te – primeira vez em seis meses, desde que estavas só tu a viver em Lisboa na tua casa grande de ladrilho frio, abandonado que fora o sotão com janela que dava vista para o rio. Dizias

- estou feliz, e sorrias, como se tivesses guardado dentro de ti todos os sorrisos desde que saíras do Porto. Eu respondia

- eu sei,

ou

- ainda bem, fico contente, parvo ainda da tua felicidade momentânea, que me causava tanta estranheza. Estava mais habituado a que tivesses triste, revoltada com o mundo e comigo, a boicotares cada um dos meus sonhos planeados para ti e para mim. Naquele dia, estavas feliz e contente. Com a vida e contigo – arriscava-me a dizer comigo: mascavas nervosamente pastilha elástica e rebentavas balões, quais meus sonhos perdidos a teus lábios, lançando aroma de morango sobre o meu rosto: não sei se já o disse.

Gostei de te ver naquele dia – tirei-te uma fotografia. Hoje pareces-me diferente; é diferente a imagem que tenho de ti guardada na minha cabeça: não és tu quem está naquela fotografia e o teu rosto parece-me distante daquela representação: identifico as linhas do teu rosto, o sinal perdido algures no pescoço, a mancha creme na testa que dizias não exisitir. No entanto, aquela não és tu: ou melhor, serás, mas apenas uma parte de ti que escasseou em mim.

A fotografia que te tirei nesse dia está onde sempre esteve. Dei-te uma cópia e desenhei num guardanapo uns rabiscos que diziam que gostava de ver assim, que gostava de ti, para continuares, que essa era a Mónica que eu queria ver e partilhar os meus dias. Pedi-te

- Continua assim,

e tu sorriste naquela tarde como tinhas sorrido no dia da partida do Pedro. De novo vi a mesma linha de contornos imperfeitos formar-se. Mascavas igualmente pastilhas elásticas e formavas balões. No entanto, os mesmos balões de pastilha elástica, cujo aroma outrora me acariciava o rosto, quais meus sonhos perdidos, já não sabiam a morango.


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Wednesday, January 7

Vinte e quatro horas em part time


São quase onze da noite e ainda não saiste. Faz um frio de rachar lá fora e mesmo assim atravessei Lisboa inteira para partilhar contigo o resto da noite: meteste na cabeça que tinhas de arranjar um part time para teres o pensamento ocupado e não houve quem te tirasse isso da cabeça. Dizes que a questão é o dinheiro, mas eu sei que és apenas tu que já não te aguentas a ti mesma – que aquele é apenas mais uma pedra na construção obscura que tacteias a medo; eu que mesmo sem compreender, te apoio, estou farto de gastar quilómetros e jantar sandes e sopas ao jantar – os únicos menús disponíveis nos restaurantes existentes no centro comercial. Todas as terças e quintas feiras tenho encontro marcado com os mesmos corredores de lojas e pessoas, o segurança quando por mim passa diz

- Boa noite

e a empregada do café junto ao solário dirige-se a mim às metades, perguntando se quero o café

- com ou sem bolo de arroz.

Estando eu estupidamente quase que ligado à tua vida por um cordão umbilical, parecia que não havia espaço para a minha vida. As tuas rotinas eram as minhas e houve uma fusão de vidas que não deveria nunca ter acontecido. Contigo, eu não podia gostar de teatro, bons livros; não podia gostar de beber uns copos, fumar um cigarro. Contigo, eu tinha que ser tu. Precisava de me libertar de ti: xô.

Sei hoje que preciso de espaço, preciso de ser eu; mas nessa altura o que tu menos querias era que eu fosse apenas eu; não que me quisesses moldar à tua imagem não é isso, simplesmente não querias que fosse eu: em bom rigor, nem tu sabias quem querias que eu fosse. Apenas querias que fosse tudo como tu querias, sem saber onde isso ia dar. Mas eu nunca quis ser como tu apontavas. Por isso discutíamos, berrávamos, aborreciamo-nos um ao outro: não nos respeitávamos,

,(isto é doentio, pensava),

dizíamos coisas que não sentíamos só porque sabíamos que íamos magoar a outra parte.

Eu queria falar-te de amor e tu preferias falar de rochas; tu querias que eu gostasse de novelas, de quiz shows estúpidos e operações triunfo desta vida e eu não gostava, não fazia sequer um esforço por gostar. Só falavas de rochas e seres vivos, notas e testes e aulas para preparar: alunos. Eu não contava. Esperava, ambicionava, apenas um dia poder somado a esse teu mundo que a custa empurravas com a barriga. O mundo que tu maltratavas como quem pontapeia o vento. O mesmo que detestavas por tudo o que não te tinha dado. Esquecendo tudo aquilo que este te tinha oferecido sem nada pedir em troca.


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Monday, January 5

Liberdade


O (meu) problema com o amor é que nunca acertamos no ponto de equilíbrio. Aquele que permitiria que do amor não brotasse mágoa. Sem se perceber como, a razão e o bom senso são desautorizados e ignorados nas decisões tomadas: as minhas mãos, a minha cabeça, os meus pés, as minhas unhas, os meus cabelos impeliam-me a não te amar. Não tanto, pelo menos. Mas o (meu) amor não se compadece com meias metades, meias verdades, meias certezas, quase que evidentes probabilidades. O amor é a totalidade de nós em nós noutra pessoa:

É liberdade para aqui
É liberdade para ali
Toda a gente diz
Toda a gente quer
Mas querendo ou não
Ninguém nos dá a mão
E todos querem a prisão de uma mulher.
(Ornatos Violeta, O amor é isto)

E a verdade é que na tua face sempre encontrei a liberdade que quis para mim.

Às vezes,
pensava que
para sempre.


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Saturday, January 3

A face sangrenta


Os nossos dias dias em conjunto estavam cheio de episódios sórdidos e momentos bizarros, tristezas que magoavam. Recordo-me de uma manhã enublada de julho em que quiseste acabar, quiseste nunca mais ver-me, quiseste que desaparecesse da tua vida para que houvesse espaço para outras. Querias afastar-me; quiseste repensar a situação, mas não quiseste dizer

- dá-me um tempo

pois sabias que não acreditava na expressão. Por isso disseste

- quero acabar,

e acabámos. Durante três semanas não falámos, não nos vimos, não trocámos mensagens. Ao fim de vinte e um dias, a saudade foi maior. E então decidimos tomar um café para os lados do Saldanha. Saías naquele momento do Liceu, ali perto. Chegaste sorridente, bonita com o cabelo escorrido, alinhado ao meio. Estavas bem naquele dia e deste-me um abraço. Eu repeti o gesto – abraçaste-me, eu abracei-te. Os teus ossos a serem tocados pelas minhas mãos. O teu rosto junto ao meu, as minhas narinas novamente a sorverem o perfume que antes inalei, o cabelo, o teu coração, que quis para mim, junto ao meu peito.

Deixámos o café de lado e fomos até tua casa, uma vez que estavas a viver ali perto, pouco mais de duzentos, trezentos metros do centro comercial. Caminhámos vagarosamente, cheios com a presença do outro, e não voltámos a abrir a boca senão quando entrámos no sotão onde agora vivias: um sítio cheio de beleza com um quarto, uma cozinha, e uma sala onde se estava com uma claraboia por cima onde podias ver o firmamento. Uma das janelas da cozinha dava para Lisboa, víamos o rio dali. As vigas que sustentavam o telhado a quarenta cinco graus obrigavam-nos a andar de gatas ou com muito cuidado para não nos magoarmos. Era bonito o sotão.

Do café para tomar café, passámos a tua casa, e na tua casa já não nos apetece café e optamos por jantar; refeição que preparaste quase a medo – ainda não tinhas a tua casa nova e improvisaste com os poucos tachos que tinhas. O menú, modesto, fez-me sentir próximo de ti: uma sopa, uma sopa quente que me soube bem. E um empadão de carne,

( - carne não, soja)

resgatado do congelador, que me soube igualmente bem. Estivemos umas duas horas a conversar, vimos um pouco de televisão e abraçamo-nos de novo– voltámos a abraçarmo-nos, partilhámos o carinho que tínhamos dentro e que nos estava a envenenar. Tu aceitaste esse carinho, eu aceitei o teu carinho; estávamos bem, ali, abraçados, no sofá, em frente à televisão que miseravelmente transmitia um qualquer filme esquecido no canal. Estavamos ali bem e tu sentiste necessidade de parar, parar um pouco – parar com aquilo que ali se estava a passar. Disseste

- tenho uma coisa para te contar, e eu fiz silêncio para te escutar: quieto parado calado. Escutei e tu disseste

- Estive com o Miguel

E aí, eu fiquei ali quieto parado mudo de vez. Sem palavra, e tu repetiste

- estive com o Miguel

como se não tivesse ouvido à primeira. Quieto parado pasmo. Levanto-me em direcção à janela com vista para o rio. Estou quatro cinco minutos a remoer, pensando. Tu chegas por trás trás e abraças-me. Dizes com pena no olhar

- sinto muito, mas que não conseguiste resistir. Não conseguiste resistir e foi mais forte que tu, que também ele já subiu àquele sotão, não é a primeira vez que levas ali alguém, que ele até já mediu as molas do teu colchão

- mas não aconteceu nada, asseguras logo.

Não sei porque me contas todos aqueles pormenores. A minha apreciação de tal atitude oscila entre a sinceridade e o sadismo. Hoje sei que foi só sinceridade, mas no momento apenas pensava no que significava o nada na frase de há pouco. Queria dizer beijos, queria dizer amassos, queria dizer toque, queria dizer cheiros. E isso para mim, naquele momento, é tudo. Sei que não posso berrar contigo, chamar-te de

- puta

como penso e por isso saio dali, o mais depressa que consigo. Sei que nada posso dizer; que já tinhamos acabado, fora o que disseras três semanas antes. Mas tudo aquilo me magoa e entristece. Esse tipo é um canalha, é um pulha, um cabrão, um filho da puta e eu, bem, eu sou eu: aquele que te vai amar muito além daquela data, mas isso, a ti, não te comove.

Abandono a cena pateticamente trágica e saio a correr, o mais depressa que consigo, o mais depressa que as minhas pernas conseguem suportar até chegar ao carro, que ligo com violência. Fujo não querendo voltar àquele cenário: só paro em casa, angustiado, com o peito a arder, os olhos lacrimejantes, os dentes mordendo os lábios, os músculos contraídos, as unhas cravadas contra as mãos. Quero mandar mensagem, sei que não devo, já não és nada, (sobretudo eu não sou nada),vais voltar a ser, bem certo, mas naquele momento não és nada, não posso dizer palavra. Opto por apenas fazer aquilo depois sempre fiz– sofrer comigo, ficar calado, esperando silenciosamente que um dia mudes. Não que sejas outra pessoa, apenas que mudes. Mas, (in)felizmente, nunca mudaste.


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Friday, January 2

Chaga


E se fingíssemos que nunca nos conhecemos? Ao passar no passeio, em consonância com os nossos corações, virássemos a cara um ao outro; e se negássemos que um dia nos sentámos em frente ao computador para entrar naquele chat; e se fingíssemos que nunca trocámos beijos, carícias, doçuras ao ouvido; e se disséssemos que o corpo de cada um nunca foi uma extensão do outro; e se disséssemos que nunca nos amámos e que tudo foi e é uma mentira; então e se disséssemos que só quisemos preencher os nossos patéticos dias com a vida que à nossa frente se oferecia, e se disséssemos tudo isto e o admitíssemos para nossa vergonha perante todos, aqui, por escrito, para que todos leiam. E se eu fizesse isso, pusesse tudo a nu, em pratos limpos? Que dirias tu? Amanhã ligarias? Deixarias uma mensagem? Ficarias triste preocupada chateada aborrecida? Enfurecida.

Ou pedirias para parar, parar. Parar de uma vez por todas com essa conversa, esta conversa. A mesma conversa que te magoa, te entristece, uma chaga que se criou na tua pele e está a alastrar a todo o corpo.


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Thursday, January 1

Um post só para ti


Sigur Rós de fundo. Levado pela língua inventada, imagino na minha cabeça um ser de contornos baços. Esse ser de contornos baços é o mesmo que amei em alturas que já passaram. Esse ser de contornos baços provoca um espasmo no meu rosto. Sorrio. Esse ser, claro, és tu. Indefesa, pobre pomba faminta.

Não sei há quanto tempo, apenas que é muito, que não te vejo com a regularidade de todos os dias. Não me recordo da última vez que te vi, que te falei, te cheirei, mas mensagens trocadas pelo telemóvel sei que foi ontem, num exercício de pouca sinceridade e latente civilidade que me quererás demonstrar.

Desejavas bom ano. Felicidades e que continuasse igual a mim mesmo. Os meus amigos dizem que tenho de mudar. Eu sinto que o devo fazer. Mas tu pedes-me para ficar igual a mim mesmo. Sei aquilo que queres dizer. Quero desobedecer. Ser outra pessoa. Outra, diferente. Mas não diferente como sempre quiseste que fosse. Independente e poderosa à imagem dos teus sonhos patetas que te levaram a cair num poço sem ar. Eu fui o teu oxigénio, agora pedes-me para não mudar. Mas há meses atrás, o que mais querias era que eu fosse outra pessoa

- preciso de admirar a pessoa com quem estou,

dizias.

- e eu só quero que gostes de mim,

respondia. Mas agora digo

- Desculpavas-te

e imagino. Sinto a tua momentânea felicidade, aquela que me exibes como uma chaga que me queres incrustar na pele só por maldade. Aceno afirmativamente com a cabeça, que quero um pouco dessa felicidade; um pouco de oxigénio, peço-te, o meu oxigénio que te ofereci. Num qualquer poço sem ar bem longe de ti.


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