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Wednesday, December 31

O dia que hoje festejo


...noutras alturas pareceu-me uma simples banalidade pontual sem importância. Alturas em que estavas ao meu lado e eu achava que era apenas mais um dia que passava vagaroso por nós. Hoje em dia, no dia de hoje, não estás comigo e não faço outra coisa que não seja recordar-te. E festejar o dia que passa.


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Tuesday, December 30

Granada de mão


Quando disseste

- já vou

pensei que aquilo que realmente querias dizer era

- já venho

no entanto, como troca desse meu estúpido e bacoco optimismo ficou apenas a fotografia do corredor, o telefone cor de rosa, a máscara étnica trazida da África Magrabina, o cinzeiro de prata trazido de um hotel em Berlim, os brincos definitivamente esquecidos sobre o móvel do corredor, a Bíblia com as folhas dobradas e sublinhadas na minha estante de livros, os meus livros e revistas por ti riscados e comentados, os teus livros e revistas por mim riscados e comentados, a tua agenda do ano passado, o computador portátil que abandonaste para outro mais moderno com os teus documentos, os teus documentos com as tuas palavras, as tuas palavras disciplinadas com os pontos e vírgulas por ti colocados, o conjunto de canetas guardadas no estojo de pele que me ofereceste, o fio dental que esqueceste na casa de banho, a caixa de tampões que não preciso no móvel sob o lavatório, o quadro a óleo com imagem de ti quando tinhas três anos que trouxeste para ocupar as paredes vazias da casa, o globo terrestre com luz interna que não quiseste levar contigo, um caracol loiro do teu cabelo que um dia arrancaste e me ofereceste como recordação, o frasquinho contendo o teu cordão umbilical que transportas e exibes como se fosse um aquário e o teu cordão primário um peixe magro e débil, o quadro pintado a roxo com pinceladas irregulares e a que chamaste "Turbilhão em mim", o mapa mundi com alfinetes vermelhos e amarelos para designar respectivamente os sítios onde tinhas estado e os que querias um dia visitar, dois ou três calhaus sobre os móveis que tu identificavas como sendo granito, basalto e xisto, os apontamentos das aulas da faculdade deixados ao abandono por toda a casa, os canhotos de bilhetes duplos para o teatro cinema bailado, um girassol seco muito seco, a tua flor preferida - aliás única flor por ti suportada, testemunho da primeira vez que saímos juntos, o vestido de seda grená no guarda fatos, a roupa interior na última gaveta da mesinha de cabeceira, os preservativos e o lubrificante na primeira, o Scrabble encafonado para a arrecadação, o esfoliante para a pele na prateleira pregada junto à banheira, o molhe de chaves - de casa da garagem do carro - colocado num prego junto à porta

não existem medidas. Todas as medidas, segundos minutos ou dias, que te equivalham.

Tenho a casa cheia de ti, mas tu não estás lá. E ao olhar para estes pedaços, uma certeza: a experiência de vida só serve para uma coisa - para que não tenhamos dúvidas que voltaremos a cometer os mesmos erros.

E isso... bem.... isso... é bom.


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Friday, December 26

Évora

Percorremos Évora de lés a lés numa manhã de Julho quente. Pisamos as pedras da calçada brancas e negras e arriscamo-nos por entre as tortuosas, exíguas e sufocantes ruazinhas da cidade. A simplicidade dos edifícios há já muito que nos seduziu, estamos rendidos aos anos de tudo o que nos atravessa.

E em cada passo que tu encontras beleza, eu busco Vergílio. A escolha daquela cidade para a nossa saída naquele sábado não foi casuística. Queria conhecer a cidade que tanta inspiração dera ao Mestre.

Perguntei a uma senhora do Turismo pelo Liceu e logo esta me respondeu se pretendia conhecer mais alguma coisa do escritor.

- Mas como sabe ela que venho à procura de referências do Vergílio Ferreira, pergunto-te estupidamente.

A senhora avança com a existência de um roteiro do Mestre naquela terra, mas logo de seguida me explica que estão todos esgotados, que por vezes

- as excursões das escolas aparecem e levam tudo.

Interiormente, fico feliz por saber que se continua a procurar a obra do Mestre, mesmo que essa procura esteja associada / integrada numa visita de estudo e os miúdos até nem prestem atenção.

A senhora pede desculpas por não ter mais brochuras vergilianas, mas num ápice estende um mapa sobre o balcão e desenha umas quatro cruzes. São os passos de Vergílio, desde a estação ao Liceu.

Metemo-nos ao caminho e quando damos por nós estamos no Liceu, agora Universidade. Mas antes paramos numa das esplanadas da Praça do Giraldo ali tão perto e contemplamos as velhas fachadas e a fonte onde eu tiro uma fotografia e tu outra. Mais tarde, vais pedir-me uma cópia dessa fotografia. Ignoro se ainda a guardarás.

A meio da tarde, já almoçados, com a praça do Giraldo, o restaurante onde parámos para recuperar forças e o liceu para trás, percebemos que um dia não chegará para ver tudo. Concordamos que gostaríamos de ver aquela cidade pela noite. Que iluminada à luz da noite será seguramente um sítio digno de ser visto.

Por isso, proponho passar ali o dia seguinte. Estava à espera que dissesses

- não posso

como sempre dizias, mas ao invés, os teus lábios formam um sorriso e simplesmente dizes que

- não tenho roupa. Problema de somenos, penso, e tu concordas: o que não falta são lojas e lojinhas em Évora. A dois quilómetros um hipermercado: vi-mo-lo no caminho.

Desmarco o trabalho que tinha para o dia seguinte e, convictos, procuramos um quarto onde ficar. Ao fim de meia dúzia de tentativas frustradas, quando já pensávamos que não existia um quarto vago que fosse, encontramos uma pensão simpática, sem ar condicionado, barata e quase rústica, apenas a sobriedade de quatro paredes brancas, uma cama, um armário, uma pequena mesa, duas mesas de cabeceira com uma gaveta apenas, uma cadeira e um lavatório: junto a este uma pequena janela com portas de madeira antevendo as cortinas de tule da cor das paredes. O tecto está pintado com formas angelicais e deitados na cama, a olhar para o cimo, tiras uma fotografia aos teus pés que parecem assentes lá em cima.

À noite, naquele quarto e à meia luz, antes de dormir, escrevi:

«
Vagueio por Évora. Penso que calco hoje as mesmas juntas de passeio que há cinquenta anos calcorreaste. Procuro encontrar numa casa, numa esplanada, numa janela, um pedaço de ti. Algo que me faça sentir pensar agir como anos antes tu pensaste. Sinto necessidade de fumar. Como também tu fumavas. De abordar o parapeito, puxar do cigarro e ficar a ver o papel consumir-se. O fumo saindo por entre as narinas, dissolvido no ar pesado que circunda as casas.

- Podes ir buscar um cigarro, disse Mónica há pouco, mas eu não fui, pois sei que esta não gosta que meta o cigarro à boca.

Há pouco percorri o claustro que antes tinha visto descrito. Pensei naquilo que pensarias ao caminhar por entre aquele espaço apertado. Vi-te acompanhado pelo Reitor. Alguém fez queixa de ti. E ao final pedi a Mónica que me tirasse uma fotografia de costas percorrendo aqueles corredores, como se eu fosse tu e tu voltasses a existir naquele espaço. Mónica disse

- paneleirices de artista, mas desta vez sorriu e empunhando a máquina disparou umas três vezes.

Com tudo isto, recordo-me que ainda não fui conhecer a estação que apresenta a obra. Talvez fosse conveniente passar por lá bem cedo. Quero pensar o que terás pensado. Sentido. Vivido. Para assim poder reler cada página e compreender cada vírgula.

E agora, querido amigo e Mestre, encerro para descansar. Ao lado de Mónica dormir, amor meu. Ela espera-me doce: cativa, entre os lencóis: meu anjo. Aguarda pacientemente a minha atenção. Dormita já, de respiração leve, os lençóis a anteverem-lhe a nudez.

Um abraço.

»
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Wednesday, December 24

Quem nos visse pensaria. Um dia.


Colocava a cabeça no teu colo e esperava que me cofiasses o cabelo. Fechava os olhos e abria o meu coração para ti. Tu não censuravas nada do que eu dizia e escutavas-me até eu não ter nada mais no peito para contar.

Desenhavas com as unhas sobre o meu pescoço desenhos imperfeitos e dizias adoro-te, que nos meus braços morrerias: eu pensava que de qualquer outra forma também eu morreria, que queria e gostava de um dia morrer no teu regaço. Uma estúpida e deprimente canção de amor percorria-nos cada veia do nosso corpo e nós quietos, em surdina a escutá-la, quase enganávamos quem nos visse: talvez pensassem que nos amaríamos. Um dia.


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Monday, December 22

Dor de dentes


Mónica, há três dias que uma dor de dentes me atormenta. Os cínicos dos poetas que dão primazia às dores da alma, relativamente às dores físicas, só o fazem porque certamente nunca lhes doeu um doente. A dor que me aflige não é uma dor qualquer: é uma dor fininha que se instala como um arame no interior do esmalte, se expande ao longo do rosto e paralisa as faces, atrofiando olhos e ouvidos. Faz três dias que vejo o mundo as metades e ouço contornos daquilo que antes eram os sons do mundo.

Todos os meus amigos me ensinam mezinhas; todos os meus amigos me dão soluções milagrosas, embaladas em caixas de cartão de cores baças e cápsulas às cores. Tu, por teu lado, continuas a achar que

- és um piegas

o que vindo de ti, a mulher das trezentas e vinte e três doenças, que conhece os médicos dos hospitais pelo primeiro nome e consegue recitar por ordem alfabética todos os analgésicos e anti flamatórios à disposição no mercado é no mínimo ofensivo: quando te apareceu uma mancha vermelha na pele, disseste que era psoríase; dois dias seguidos com dores de cabeça, pensaste que seria cancro; três arrepios de frio e já estás quase com pneumonia.

Estou rezingão, bem sei. Hoje é a minha vez de estar de costas para o mundo.


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Friday, December 19

Acho que não é pecado


...fazermos uso das palavras dos outros para expressar o que sentimos e nos convém.

«
fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
»

José Luis Peixoto, a criança em ruínas, 4ª edição, Quasi Edições, p.57.



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Thursday, December 18

O fantasma


Durante meses, fui uma forma sem forma que ocupava espaço na tua vida, mas sem que a esta ocupação de espaço correspondesse uma sombra – não existia além de ti, quero dizer.

Para os teus colegas amigos familiares, não existia, ou pelo menos não enquanto a verdadeira dimensão de mim e ti. Toda a gente sabia quem eu era, o que fazia, o que tinha sido, mas não o que era realmente.

Durante meses, suportei ser um ser amorfo, isento de extensão. Mas isso foi durante meses. Nesses meses, enquanto namorado (seja lá o que isso for), aceitei não o ser. Mas como amigo, não consigo. Na ideia de amigo, no meu conjunto de atributos que classificam a palavra amigo, não consigo compreender a ausência.

Por isso não a vou aceitar.

É o fim, disse-te, aliás escrevi-te. Agora recordar-te-ei apenas.

É o fim.

E é mesmo.



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Duzentas e cinquenta páginas de amor


Faz hoje um ano que me formei. Desde há um ano a esta parte que a minha mãe já pode dizer a vizinhas e amigas que o seu filho é doutor. Mas o que me vem à memória não é o nervosismo miudinho naquele corredor, aguardando a minha vez para discutir as duzentas e cinquenta páginas de texto que escrevera.

Recordo isso sim, com nostalgia, o mês que passei a escrever o tal texto – relatório tese, como lhe chamavam. Recordo-me de ti do meu lado. Recordo de quando após me ter deitado umas sete horas antes, me levantava por volta das três da tarde, escrevia até às oito da noite e depois invariavelmente jantava em minha casa ou melhor, na tua, onde tu preparavas um jantar como só tu sabias, com o paladar comum a todos os preparados: bacalhau com oregãos; carne com oregãos; salsichas com oregãos; batatas com oregãos; pão, surpresa das surpresas, com oregãos. Passavas mais de uma hora em frente dos tachos a preparar tudo com carinho. Exigias sentido e respeito quando entrava no espaço onde o fogão e as panelas e os talheres e os condimentos eram um instrumento de trabalho do carinho que depositavas no preparado.

Depois, obrigavas-me a pôr a mesa,

- não te esqueças do pão, das bebidas, dos talheres de sobremesa e dos guardanapos

e ordenavas-me que

- deixa-te estar aí sentado que eu já vou.

E eu obediente, mirando a nudez das paredes enquanto esperava que chegasses com a caçarola cheia de sorrisos e oregãos, esperava.

Como combinado, eu levava sempre a sobremesa

- Queres gelado, pudim, bolo, frutas...?, perguntava-te nervoso em pleno hipermercado, já atrasado.

e depois da sobremesa estendíamos no chão frio da sala, camuflado a cobertores e almofadas; ali, com o televisor ligado a testemunhar o pudor, fazíamos amor como dois adolescentes que descobrem o amor pela primeira vez. Fenomenologicamente, seria apenas corpo, mas não era esse o espírito que nos movia. Seguia-se o chá, sorvido em meia hora de conversa; seguia-se a viagem até à cama, onde te deixava, após teres adormecido. Fechava a porta em surdina e tu dormias. Eu regressava a casa, feliz com a vida que levava. Sem trabalho, com pouco dinheiro, sem objectivos – mas feliz. Eras tu quem me dava essa felicidade. A dor que transportavas para o meu mundo, compensavas com calor.

E só tenho pena de só agora, já doutor, me aperceber disso.

Mónica, adoro-te.



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Tuesday, December 16

Catarina ou o sabor da sua gargalhada


A Catarina também me conhece para além dos blogs. A Catarina costuma ler aquilo que escrevo e até diz gostar do que lê. Mas a Catarina também diz que apenas lê coisas tristes, pesadas, que gostava de ler algo que fosse leve.

- Mas não sinto que seja capaz de escrever histórias da cor das rosas.

-Não precisa de ser uma história cor de rosa, apenas que não tenha uma carga negativa tão forte.

Por isso, porque a sua opinião é importante – mas sobretudo porque a sua amizade me é importante, decido-me, comprometo-me aqui hoje perante os três leitores que tenho;), a escrever algo de leve para homenagear a Catarina. Como agradecimento da sua estúpida gargalhada e da partilha dos cigarros consumidos a dois.

Mais tarde, partilharei essas linhas.


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Sunday, December 14

Aos amores que hão-de vir

Pedro, Luciana
eu, Adriana,
vocês
os nossos vizinhos,
os vossos amigos,
queremos afinal pouco.
Muito pouco comparado com
O que nos fazem crer que queremos.
Uma oportunidade,
uma chance pequenina,
de conhecermos a maravilha de sermos
de alguém e sentir que alguém
quer ser nosso.
E por momentos, nem que seja
por um momento, sabermos o
que é partilhar um momento,
saborear o espanto de
conseguirmos esquecer-nos de nós,
por um momento,
um pequeno momento,
imaginarmos que ao nosso lado
um outro coração corre à mesma
velocidade serena,
ansioso por chegar ao mesmo lugar,
onde nos espera o mesmo destino,
por um momento,
um momento simples, pequeno,
que nos garante estarmos vivos
porque alguém deseja que estejamos vivos,
ao nosso lado, a tocar-nos ao de leve,
apenas o suficiente para sabermos
que não estamos sós,
que não estamos sós nesse momento,
esse pequeno, irrepetível momento,
em que o caminho nos parece suave,
podemos por segundos fechar os olhos
e abrir os braços
seguros de que alguém nos vai segurar,
subitamente leves numa relva fresca,
numa madeira lisa e limpa,
num suave fio de água,
tranquilos por um momento,
amados por um momento,
que provavelmente não se repetirá,
mas que não trocaríamos por nada,
nessa absoluta necessidade
de viver enquanto há um sopro de vida,
apesar do medo,
apesar das regras,
das probabilidades,
das mais-que-evidentes-certezas,
esse momento
esse pequeno, singelo, inesperado
momento,
em que nos cicatrizam as feridas
de uma existência aflita,
com os pés no arame.



Rodrigo Guedes de Carvalho, Os Pés no Arame, 1ª edição, Contemporânea, p. 77.

Espero ansiosamente o dia em que o Rodrigo Guedes de Carvalho se decida a abandonar o jornalismo para se dedicar unicamente à Literatura. Com duas obras publicadas, “Daqui a Nada” (romance) e “Os pés no arame” (teatro), donde sai este excerto, julgo que teremos nele uma das futuras vozes maiores da literatura portuguesa.

Em Junho de 2002, dias antes de te conhecer, tive oportunidade de assistir no Hospital Júlio de Matos aquela que julgo ter sido a única encenação da peça. Ali, naquela noite, valorizou-se a palavra pela palavra. Cada palavra tinha o peso que cada palavra tem. As palavras eram encaradas de frente e respeitadas. Não, não é isso: aquilo que queria dizer é que as palavras eram instrumentalizadas; eram armas de arremesso, como murros no estômago que o público, disposto em meia lua ao redor do palco, sentia e por masoquismo continuava a escutar. Aquele palco era a vida, as nossas estúpidas vidinhas, dispostas ao ridículo de nós.

Faziam parte do elenco uma surpreendente Dalila Carmo e uns fantásticos Marco D’Almeida e Pedro Laginha. A fechar o elenco, uma desconhecida que infelizmente não voltei a ter o prazer de rever no palco: Vanessa Agapito. A encenação era de Isabel Abreu, a restante produção assinada por Jorge C. (música), Rute Correia (figurinos), João Parrinha (Cenografia), João L. Morais (Desenho de luz).

Naquela noite, recordo-me de ter ficado angustiado. Naquela noite, à saída, não dispunha dos euros necessários para adquirir logo ali a obra. Devia ter pedido emprestado, solicitado fiado. Para me redimir, à primeira oportunidade, entrei numa Fnac e comprei dois livros iguais. Um para mim, outro para oferecer. Já terei repetido este gesto umas duas, três vezes. Enquanto sentir que há vida real nestas palavras, continuarei a fazê-lo. Enquanto for a pessoa que hoje sou, continuarei a admirar este livro - invocação maior e frágil de uma noite em que me senti. Com os pés no arame.



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Despedida na despedida


Afinal o prémio não era de âmbito nacional, mas internacional: do outro lado do Atlântico, dois brasileiros resgataram outros tantos prémios. Mas nem assim ficaste comovida e decidiste aparecer. Passei metade da cerimónia a olhar para as cadeiras de trás, tentanto perceber se já tinhas chegado e te tinhas sentado sem fazer barulho, mas nada. De ti, apenas a ideia na minha cabeça. Nem uma mensagem no telemóvel.

Disseste que

- tenho um jantar

e ao abrigo de um jantar, mesmo sabendo o que poderia significar este prémio, não apareceste.

Escrevo poderia significar. Agora subestimo o prémio à sua expressão mínima: os que me são próximos falarão de mim. Mas não me consigo sentir feliz. Fizeste falta na cerimónia. Estava à espera do teu abraço e do teu sorriso, já o aqui tinha dito.

Sabias que ao dizer que não, ao não apareceres, também daria um passo para que não te procurasse mais. E sabendo isto, mesmo assim

- tenho um jantar.

Não é a questão do prémio pelo prémio, é a questão da acção pela acção. Sabemos já também que da última vez que fui agraciado com um título deste tipo, estávamos juntos há pouco mais de três semanas. E dessa como das outras vezes, decidiste ficcionar o teu passado, (parafraseando o meu amigo Jorge: a memória é uma ficção do meu passado), chamando à conversa quem não fazia sentido que fosse invocado. Começaste então a falar de um intelectualóide, jornalista de um matutino com quem partilharas em tempos que já lá iam juras de amor.

Estávamos na área da restauração dum centro comercial junto à Expo e decidimos recuperar um pouco as forças num café. A certa altura, dizes:

- O Tiago escreve.

- Eu também escrevo, riposto. Informação que já dispunhas.

- Mas ele publica.

- Eu também, continuo, já ferido no orgulho.

- Ele ganhou um concurso.

- Eu ganhei dois, remato querendo parecer um pouco mais alto do que aquilo que realmente sou. Tentando com aquele testemunho obter um pouco da admiração que esbanjavas com a ideia do jornalista e economizas comigo. Ao terminar de dizer «dois», julgo que fui capaz de travar esse teu ímpeto, que depois desta última resposta, não vais insistir em continuar a falar de uma terceira pessoa que apenas consigo odiar; essa pessoa está distante– não só no espaço, no tempo também: sou eu que estou ao teu lado, que preencho grande parte dos teus dias, todos os (últimos) dias, que te mando sms antes de dormir, te beijo a boca e ouço as tuas tristezas por um pai que já não possuis. Mas quando julgo ter a certeza que resolvi a contenda, tu disparas um:

- Mas ele com o dinheiro do prémio, fundou uma revista de sucesso. E tu que fizeste, pensas, mas não dizes.

Eu? Bem, eu de facto não fiz grande coisa. A minha tarefa maior após o prémio foi mesmo tentar que gostasses de mim. Empenhei-me de tal ordem nisso, que não existiria projecto material algum que pudesse subsistir à grandeza da ideia de ti. Fiquei triste. Muito triste. Ainda hoje fico quando penso nisto; ainda agora, que o escrevo, esse momento me traz tristeza.

Ainda agora a recordação de, esta tarde, não teres entrado triunfante naquele salão nobre, me traz mais tristeza. E julgo que vai continuar a trazer pela noite fora.


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Friday, December 12

Prémio Literário Júlio Graça



Querida Mónica

Amanhã receberei, possivelmente das mãos da minha professora primária, uma menção honrosa pela participação no Prémio Literário Júlio Graça. Este concurso, de carácter nacional e instituído pela Junta de Freguesia de Alhandra, está integrado no programa das “Comemorações dos 800 anos do Foral de Alhandra”.

Foram júris José Manuel Mendes, José Correia Tavares e José Jorge Letria.

Lá te esperarei, no meio da audiência, esperando que já me tenhas perdoado o adultério intelectual. Lá, esperarei o teu abraço e um sorriso. Esperarei ver a admiração pelas minhas letras que nunca senti que reconhecesses. Lá, esperarei que me mintas e quase me chames de escritor. Mesmo sendo mentira.



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Gastámos tudo menos o silêncio


Em três dias estará tudo terminado. Ainda não o sabemos, mas em setenta e duas horas o teu perfume desaparecerá do meu carro para dar lugar ao cheiro dos cigarros consumidos na pressa dos dias.

Sempre soubemos que esse dia chegaria um dia; soubemo-lo a tantos dias quantos os que agora faltam para tudo terminar. Os motivos, tantos, amontoam-se em caixotes na minha cabeça.

E há tanta tristeza na tua mão que agora seguro: nos olhos que já sorvi lágrimas; no sorriso que se apagou do teu rosto; na boca que hoje não me beija; nos teus gestos anormalmente tristes; no teu toque distante: estás ali como sempre estarás na minha cabeça: etérea e eterna.

Há despedida na tua despedida. Nas palavras que não dizes, na mão que tentas resgatar da minha. Ficamos distantes, longe dali: ambos sabemos que fazer, mas ambos assumimos a falta de coragem para dar esse passo. Na esplanada do café combinado, a Maria e o Artur esperam-nos. A Maria é a nova namorada daquele que é o meu terceiro irmão; a Maria é publicitária como eu - o Artur é engenheiro como eu nunca quis ser.

Ambos olham-nos ao longe - Artur pensa que estará tudo bem entre nós, insisto para que não me largues (d)a mão. Quero que se pense que somos felizes como sempre lhe disse que éramos. É essa a ideia que sempre quis passar. Assim, daqui a três dias, sempre vou poder dizer que só não deu porque não tinha que dar. Que afinal talvez ainda não estivessemos preparados para a perfeição um do outro.

Numa palavra, mentir-lhe-ei.



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Monday, December 8

Faraway, so close


Mónica. Um dia, num texto de ficção, escrevi as palavas que abaixo reproduzo. Certamente recordarás este texto. Saía da biblioteca e tu encontraste-me a caminho da sala dos computadores para passar a limpo os rabiscos que escrevinhara em papeís de rascunho. Quiseste ler o que escrevia. Quiseste levar os papéis para casa. Já tinhas o meu coração na tua posse, achei que não haveria problema que levasses aquilo que eram apenas palavras.

Hoje, ao reler, a pureza e assertividade das palavras fere-me.


Estamos longe, tão longe, muito demasiado em excesso longe. Longe de sermos outras pessoas que não estas; de a voz do outro nos fartar, de nos entediarmos com os passos de cada um no passeio e com a forma de guiar o carro do outro. Ali naquele momento estamos felizes. Estamos longe, tão e demasiado em excesso longe dos quatro ou cinco anos que vão passar e eu vou perceber que me mentes em cada telefonema feito. Estamos longe de deixares de atender o telemóvel às minhas insistentes tentativas; e nem me quereres falar. Explicar-me. Mostrar-te quem sou realmente. Estamos longe, distantes diria mesmo, de termos a certeza de que existem mais vidas na tua vida, que a minha vida já não é a vida que tu queres que preencha a tua; que cedo vais dizer que vais sair e talvez passem dois, três quatro semanas até que te ponha a vista em cima. Cedo, demasiado cedo, eu não serei o tipo que agora sou. Será aqui que situações bárbaras, com data de nascimento de anos a esta parte, terão a sua malfadada génese.

Mas agora vejo-te, à penumbra da luz finita de um Agosto quente.

Estava em casa, pretendia nada fazer deste dia, mas tu resgataste-me do recatamento da casa silenciosa. Terminámos numa esplanada com dois turistas: um que ouve, outro que fala. Um que enche energicamente o peito quando fala, outro que que reage com suspiros.

Sinto falta desse tempo. Preciso desse tempo. Tenho saudades do pouco corpo que o meu corpo foi corpo quando o teu corpo caía sobre o meu e o meu corpo e o teu corpo formavam mais um corpo. Tenho saudados do contacto dos dois corpos que germinavam mais um corpo. Havia contacto, saliva beijos tacto; energia que se desfazia no corpo do outro, descargas orgásmicas impregnadas de amor. Amor amor amor, muito e muito mais amor. Tenho saudades desse corpo, daquele corpo que se formava e que somava cada um dos nossos corpos. Sinto falta de dares o teu corpo para ser acolhido pelo meu corpo e brotar em nós um outro corpo. Tenho saudades desse terceiro corpo, produto de bem mais que a soma dos dois nossos corpos.


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Sunday, December 7

As pessoas que éramos quando connosco estávamos
Mónica


Os nossos estúpidos dias nem sempre foram assim. Houve dias em que fomos felizes. Houve uma altura em que gostava que deixasses uma mensagem pateta no telefone. Em que gostava que ligasses. Mesmo quando metias a quarta e desatavas a falar e não me deixavas interromper-te. Telefonava-te e eras tu quem falava. Tanto que por vezes afastava o telefone das orelhas, já quentes. Dali a uns momentos, voltava a ver em que ponto estava o enredo. Os miúdos, a colega, os teus amigos, o canalizador, o arrumador, o teu pai; o carro avariado, a casa por estrear, as férias, um perfume, os saldos, o tempo chuvoso, mais um relógio. Quando o telefonema chegava ao fim, tinha de voltar a ligar para perguntar-te ou comunicar aquilo que inicialmente pretendia.

Houve uma altura em que as manhãs sorriam quando eram enfrentadas ao teu lado. Alturas em que bem cedo me levantava e abria as janelas, que inundavam o quarto de luz e calor. Alturas em que nus, não me dizias que me amavas, mas te aninhavas no meu peito e escutavas o meu coração. Alturas em que me cofiavas os pelos do peito e me distribuías beijos chilreados em torno do pescoço e ao longo do meu tronco magro. Na barriga e nos flancos. Me passavas com a língua pelo umbigo e inalavas o meu cheiro.

Esperávamos que fosse meio dia e descíamos a rua para tomar o pequeno almoço no café junto à tua casa: leite, pão, manteiga, bolos, café, morangos e pedaços de melão. Um pudim que comíamos dando colheradas de um e de outro ao outro. Houve alturas em que eras de tal forma feliz, e eu também, que te esquecias de onde estavas e cantavas; cantavas muito uma velha canção de infância:

Há tantas coisas das quais tanto gosto
Mas não me lembro de todas e aposto
Por muito que eu perca tempo a pensar
São tantas tantas eu nem sei cantar


alturas em que, no meio do quarto, ao som da música que tocava no rádio, qualquer música, sambavas. Alturas em que nos separávamos e regressavas a casa comigo no pensamento. Tu comigo. Alturas em que passava a tarde sózinho escrevendo, esperando que fosse noite para de novo estar contigo. Para seres comigo. Para ser mais eu. Alturas que hoje nos ferem, por já não sermos as pessoas que éramos quando connosco estávamos.


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Thursday, December 4

Luz mortiça

Mónica,

Vinte e quatro horas sem ti e volto ao romance. Percorro os corredores da terra imaginada e os defeitos e vicissitudes das existências que começo a reconhecer como uma extensão de mim. As derrotas dos protagonistas são assumidas como derrotas pessoais e neste momento só posso pedir que aprenda e cresça com eles. Hoje enchi a terra imaginada de dor, embora seja a minha dor, a dor que as personagens deveras sentem.

O manuscrito é ainda o mesmo que perscrutaste há um ano sem autorização: insisto em escrever com canetas de aparo, cuja tinta desbota sobre as ruidosas e frágeis folhas de papel vegetal. Os rabiscos passo-os com precisão para o documento word, formatado a 500% com letras de tamanho quatro.

- Paneleirices de pseudo artista, disparas, cruel, indiferente às palavras que desenho.

Sei que não sou escritor, possivelmente nunca o serei, mas não é por isso que deixo de tentar. Se tentar alcançar a lua, pode até ser que não lá chegue, mas com os pés na terra não fico, digo. E ris-te na minha cara, primeiro um sorriso breve, depois uma gargalhada que te ocupa a totalidade do rosto. Chamas-me:

- pateta

e continuas a comer a maça que resgataste da mochila, limpa à pressa na manga do casaco. A primeira vez que falámos tinhas esse casaco. A última também. Tenho dificuldades em imaginar-te sem ser com esse casaco. Tenho dificuldades em imaginar-te. Ponto




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Wednesday, December 3

Submersão

Mónica. Passou-se um dia e nem te aproximaste. Esperei que me viesses acordar com o teu estridente bom dia e me enchesses a face coberta de sono com beijos chilreados; deixei o teu lugar vago na mesa para que fizesses sociedade na partilha das torradas e depois me acompanhasses na viagem até ao trabalho, como sempre.

Mas pela hora de almoço, já sabia que não te veria durante todo o dia.

Agora dizes-me que nunca mais me vais querer falar. Que vais desaparecer e eu nunca mais te vou pôr a vista em cima. Que já não podes ir ao cabeleireiro, jantar nos sítios do costume - que toda a gente olha, toda a gente comenta.

Lá vai ela! Dizem em sussurro, à boca cheia, com a simplicidade das palavras banais.


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Monday, December 1

Adultério
(para ti, ou uma estúpida tentativa de me explicar)

You ask me to enter,
but then you make me crawl
And I can't be holding on to what you got,
when all you got is hurt.

One, U2
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