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Sunday, November 30

Casualidade
Mónica:

A casualidade tem-me trazido tantas e tão boas coisas que, por vezes, quando as tento enumerar, não sei por onde começar.

Ainda que a tua existência não tenha sido uma casualidade, bem certo, foste uma evidência óbvia, clara e cristalina – perdoa-me a adjectivação, a repetição, a redundância. Serás talvez a excepção que só comprova a regra: tinhas que existir para além das páginas do livro como eu tinha que ser filho do meu pai e da minha mãe, cópia imperfeita da bondade e coração grande dos dois.

Mas retomando a causalidade, esta prostituta que me trouxe bons livros, bons filmes, bons amigos – era dela que falava. Amigos como o Jorge, que por tradição deveria odiar, mas que o coração e o bom senso não o permitem. O Jorge, que é produto da causalidade maior que foi um dia sentar-me em frente de um teclado como este e optar pela entrada num chat. Não conheci aí o Jorge; este foi produto de outras causalidades: foi produto de uma existência no local certo à hora certa, como a banalidade das palavras diárias traduz. Aquele momento foi como um milagre escrito em inglês com a duração do mesmo à frente.

Esse milagre trouxe-me um amor inconfessável, uma profissão, um amigo como o Jorge, cuja aguçada inteligência germinou uma editora como as Quasi Edições. As Quasi que tratam o livro como ele deve ser tratado: com admiração, com respeito. Um livro das Quasi é sempre um objecto bonito, que dignifica a existência livro. Um livro das Quasi Edições sobressai sempre nas estantes das livrarias. Um livro das Quasi é sempre uma porta aberta para uma boa surpresa.

Isto, dito por alguém que sente tanta adversidade pela poesia, o prato principal da editora. Não, adversidade talvez não seja a palavra. O mais correcto será dificuldade. Falta-me inteligência, capacidade e sensibilidade para a compreender, sobretudo tomar-lhe o pulsar. Por isso, por vezes digo que não gosto de poesia, quando na verdade estou interiormente convencido que simplesmente tudo é um acto de preguiça. Quando, na verdade, talvez até goste – simplesmente tenho medo de a discutir com alguém que tanto sabe sobre o assunto. Como o Jorge. Tenho pânico de não ter compreendido bem um verso, um poema. Eu que sempre fui prosaico e que nunca me emiscui de me passear pelo Rainha Sofia e pelo Prado, mesmo que não soubesse situar a obra na corrente ou século respectivos.

Sim, já sei querida – estou a divagar. Tornar-me maçador. É este costume estúpido que tenho de fazer associações com pontos onde não podemos fazer ligação. Bem sei. Perdoe-me.

Está cansada. Vejo-o. Sinto-o. Eu que a sinto dentro de mim como não sinto a poesia. Você que é o poema mais complicado que pus a vista em cima. Tudo isto saiu um pouco longo, já sei, perdi-me a falar de dificuldades e a justificar-me. Para um primeiro dia, foi árduo o dia. E a fadiga afecta-me já o discurso: nem sequer me sinto esclarecido quanto a se devo tratá-la por você, como quando nos conhecemos, ou simplesmente conjugar os verbos na segunda pessoa.

Acho que vou fazer esforço por adormecer. Mas antes, divulgar-te ao mundo. Esquecer as minhas inseguranças e pegar no livro de poesia do Al Berto, o único livro escrito em verso presente na estante que não me lembra aulas de Português.

Despeço-me. Voltarei, querida.



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