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Sunday, August 8

nOvO bLoG?

http://alquimiasubmersa.blogspot.com

Em parceria com o escriba maior Nuno Catarino.


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Friday, June 25

Adeus


Agora, a única coisa que tenho por certa é que, após esta carta, deixarei de pensar em ti. Pousarei a caneta sobre as folhas de papel e um silêncio imenso seguir-se-á. Já não sou eu o tipo que um dia te falou ao ouvido e quis fazer dos teus dias os seus. Tão pouco vou querer saber de noites em branco, esperando uma mensagem tua ou de noites em que simplesmente decidiste não aparecer. É a despedida sincera à minha sensibilidade por ti. Aqui, nestas páginas, repousarão as minhas memórias de ti, como flores que lavraste em meu peito. Vou calafetar o meu coração para que a tua presença não me invada esta noite, como todas as horas a haver deste momento adiante. E assim poderei adormecer descansado, sorrindo sempre antes de dormir. Enternecido com a existência que me deste. Adeus.


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Thursday, June 3

Para sempre




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Sunday, May 30

Por entre os teus meios


gosto dos teus mimos,
da tua boca
(e lingua),
cheiro,
abraço
(amasso),
pele e
regaço

- quê?

Disse que

- gosto dos teus mimos, da tua boca (e lingua), cheiro, abraço (amasso), pele e regaço

- Estás bem?

- Estou.... porquê?

- Viste bem o que disseste?

- Sim.

- ...

- ...

- Ora...

- Que foi? Ora o quê?

- fico envergonhada....

- Mas... Mónica...

- Deixa-me dormir.

- ....

- Mas eu só disse que

- Não sejas ordinário. Quero dormir.

Fim de citação.


umapalavravazia

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Friday, May 28

Mais um diálogo idiota


- Importas-te de levar isto mais a sério?

- Mas eu estou a levar a sério.

- Então o que é isto?

- Isto é o que me pediste.

- Pedi-te um texto sobre as coisas que mais gostas, porque supostamente terás jeito para escrever, e devolves-me este conjunto de banalidades e lugares comuns... saúde, segurança, amizade,....

- Eu sei o que escrevi. Não precisas de repetir. Mas... diz-me: já te passou pela cabeça que não sejam só banalidades e que essas coisas, sejam, de facto, as que mais prezo?

- Peço desculpa... pensei que fizesse parte das coisas que mais prezavas... (amuo)

- E fazes... ou esqueci-me de escrever liberdade?


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Friday, May 21

Estúpida alegria(*)


Bailas nos meus sonhos como um sorriso que plantaste para sempre no meu rosto. Chegaste agora a casa, vinda da praia e dizes que viste crianças, muitas, que estas pulavam de um lado para o outro e erigiam castelos de areia. Olhas-me nos olhos, como se toda a verdade estivesse neles e explicas-me que a primeira barreira a ceder ao ímpeto das águas foi o fosso construído à pressa, que a água do mar inundou o recipiente para além da sua capacidade, e que ponte de areia que o atravessava, dissolveu-se exausta na água que corria. Dizes que as crianças sorriem e cantam a alegria em gargalhadas, como tu já foste feliz um dia. Um dia que está a uma imensa distância, como também imensa é toda a água que hoje te salga a pele. Chegaste agora a casa, vinda da praia e uma estúpida alegria baila-te na pele e nos olhos: deitas-te na cama,

(o ténue vestido de linho a antever-te a nudez: por baixo do vestido reduzido, adivinho a intimidade que hoje ainda me entregarás)

e dizes que as crianças de seguida compraram gelados; que pegaram nas bicicletas e andaram andaram andaram. Deram às pernas nas bicicletas até a pele ficar rubra e os bafos saírem-lhes pela boca, como as chaminés da fábrica que, da janela do quarto, vemos ao longe. Estás feliz, uma sinestesia eufórica embriagou-nos os sentidos e quase dizes

amo-te

mas quando peço que repitas, devolves um

anda cá. E eu vou. Inseguro, com medo de tanta alegria, preparado para o pior, abraço-te. Digo

adoro-te, e tu beijas-me a pele, trincas-me o ombro e dizes

esta vai deixar marca

e aí, ainda fora de mim, cheio de tanta atenção tua, só penso que tens razão, que este momento vai mesmo deixar marca:

é certo e sabido que tão cedo não te verei assim feliz.

(*)Título gentilmente cedido pela Dália.

Margarida Delgado

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Sunday, May 16

Sonho mau


Sonhei esta noite contigo, sonho que me devolveu um pesadelo. Estavas à beira da morte, um cancro assomara-se de ti e eu, por contacto com o teu corpo, fora contaminado com o teu mal. Acordei aflito, muito, com um nó no estômago, a coração a dilatar-se ao longo das costelas, como se o meu peito se transformasse numa poça de sangue imensa, o sangue chegasse à minha garganta, da garganta à minha boca e eu tivesse dificuldades em respirar. Um pequeno fio de sangue brotou pelo centro da boca percorrendo o sulco dos lábios, até se libertar e manchar o rosto pálido e frio.

Entristeci, entristeci, entristeci. Sabia, porque nos sonhos sabemos sempre tudo, que tinha mais um ano de vida. Mais um ano, apenas isso, exactamente o mesmo tempo em que fora contaminado por ti. Pela tua doença, pela tua morte. Tinhamos o mesmo tempo de vida, ainda que as nossas vidas fossem diferentes e fossem outras vidas aquelas que partilhariam o resto da nossa vida. No entanto, o que me impressionou foi que, sabendo eu que teria o mesmo (tão pouco) tempo de vida que tu, apenas a tua morte me importava.


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Wednesday, May 12

O homem da gráfica


Mónica,

acaba de ligar-me o homem da gráfica:

- Sô Paulo, não há livros para ninguém.

- Como não há livros para ninguém?

- Não há, não consigo imprimi-los.

- E diz isso dessa forma leviana?

- Posso dizer a cantar, se quiser. [Risos]

- Mas que se passa afinal?

- A máquina não imprime. Encrava a cada segundo.

- Mas como encrava? Ó homem, arranje-se, tenho de ter livros na próxima semana.

- Mas não vai ter. Estou farto de andar a limpar as lágrimas e o sangue que se acumulam no chão da gráfica. Impossível. Esqueça.

- Sangue?

- Sim, sangue.

- Lágrimas? Mas qual sangue, quais lágrimas?

- O sangue e as lágrimas que jorram das palavras impressas no papel.


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Tuesday, May 11

...


Vidas paralelas que crescem, florescem; formas que não sonhei tomam-me num murmúrio. Um filho que não concebi - caminhos certos por linhas, paralelas, tortas. Sentado aguardo - a vida que cresce dentro de mim.


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Wednesday, May 5

Tantas cartas


Mónica

Cartas, tantas. Tantas cartas a Mónica. Cartas que se amontoam, que se cruzam, se ultrapassam. Tantas linhas escritas, rasuradas, cruzadas como destinos que não se encontram. Mónica triste, Mónica alegre – deprimida e dorida. Mónica feliz, Mónica minha vida.

Mónica

Mónica

Mónica

Tantas cartas, tantas Mónicas, tantas cartas a Mónicas, que um dia serão matéria. Num só livro...


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Saturday, April 24

Novas cartas, mesmas cartas, as cartas de uma só vez


Mónica
Estou cansado. Muito. Já não sorris dentro de mim. Mais cartas chegarão, melhor: entregar-te-ei mais cartas; aliás, reformulo, preciso: encontro-me a compilar as cartas para enviar-tas de uma só vez; como uma frase interminável que não permitiste que eu te dissesse durante o tempo que estivemos juntos. Pelo meio, anexarei umas quantas novas palavras que ainda não conheces, - farei questão de dizer-te outras tantas palavras finais. Para que daquele tempo, de facto, apenas reste eu.

Voltarei.


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Sunday, April 18

Dúvida


Passou-se tanto tempo que pareço não saber o que aconteceu e o que apenas foi imaginação na minha cabeça: às vezes parece que não houve passado nem ficção, que a distinção nem sentido faz. Pois tanto num plano como noutro, exististe tu: de tal forma assim é que confesso não saber em qual das dimensões estiveste mais presente. Em qual das duas me senti mais (in)feliz.

Sinto que estou perto do fim e que estás cada vez mais longe. A semana passada, não querendo pensar mais em ti, comecei a recolher as cartas que te escrevi nestes não sei quantos meses

(folhas pequenas e grandes, de várias cores e escritas a azul, a preto, a vermelho e rosa, o Moleskine profanado na sua beleza intrínseca).

lentamente, como quem não quer olhar olhar para o passado, fui somando na última gaveta da secretária onde sempre te escrevi, cada carta que encontrava pela casa. Ontem, de uma só vez, deparei-me com um par de cartas de algumas páginas que entupiram a divisão do móvel.

E nesse momento, não sei se pela quantidade se por alguma frase que a visão incauta vislumbrou, pensei que ali, (aqui), o teu corpo e a minha memória jaziam, lado a lado, de mão dada.


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Tuesday, April 6

Férias


Estou e tenho estado de férias. Não quero pensar em ti nestes dias - muito menos escrever-te.

Voltarei?


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Friday, April 2

A mancha


- E pára de olhar para a minha mancha!

- Qual mancha?

- Essa para onde estás a olhar.

- Não estou a olhar para nenhuma mancha.

- Não digas nenhuma, como se não soubesses que tenho uma.

- Certo, não estava a olhar para a tua mancha na testa.

- Pronto. Tinhas mesmo que dizer isso dessa forma?

- Qual forma?

- Essa. Sublinhando o “Na tua testa”.

- Que queres que diga? A mancha, de facto, É, na testa.

- Pensava que não vias nenhuma mancha.

- E não vejo... não vejo...

- Acabaste de dizer que tinha uma.

- Sim. Não. Bom... não sei... olha...

- Diz.

- Podemos mudar de canal?


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Tuesday, March 30

Dúvida


Tenho saudades tuas. Penso em ti.

voltarás algum dia?


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Sunday, March 28

Para Ti


- Gosto muito de ti, disseste.

- Eu também.

- Também gostas de muito de ti, é?

- Não. De ti.

- E de ti, não gostas?

- Nem por isso...

- ...

- Bom... talvez goste da parte que gosta de ti!


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Friday, March 26

Quando regressares a casa já será tarde


Quando regressares à casa que hoje abandonas, apenas o seu espaço restará. Eu já terei partido, inspirado num outro amor que não o teu. Em cada murmúrio que desrespeitaste, eu senti-te dentro de mim, embora tu, ao abrigo de uma incompatibilidade inexistente e que só na tua cabeça ganhava sentido, vezes sem conta rejeitaste o corpo que te albergava em surdina. Por cada murmúrio que desrespeitaste, deveria castigar-te. Mas ao invés de o fazer, vou só esperar que regresses a casa, como se nunca me tivesses abandonado. Quando o fizeres, já terei partido. Restará apenas o espaço: e a saudade.


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Wednesday, March 24

Esperando para existir


Sentei-me ontem ao computador na vã esperança que me inspirasses a escrever-te algo. Duas horas, vendo o tempo passar e o Martini a evaporar-se na garrafa minúscula. O copo com dois cubos mas sem alcool. No espaço reservado a existires, apenas a referência do documento que dizia carta a mónica. Mas da carta, só o nome. Os meus dedos à posição de te saudarem, aguardando ordens. O meu cérebro querendo comandar as mãos entorpecidas, esquecidas sobre o teclado. Os meus olhos cansados, fechados, escutando a música que me chegava pelo phones.

Estou cansado de ti: farto de ter-te na minha vida, quero dizer(-te). Sempre a parasitar, vivendo das minhas angústias e tristezas. Quando estavas aqui comigo ao meu lado era assim e agora tão pouco a situação se apresenta diferente. Precisas de mim para viveres, para seres gente, não te esqueceres de quem és, onde trabalhas e de quem gostas. A tua vida sou eu, eu sou a tua vida; a minha vida és tu, tu és a minha vida. Não temos individualidade e somos sanguesssugas um do outro. Tiras-me o ar, eu não te deixo respirar. Crescer e seres tu. Sou insuportável, tu és insuportável. Há uma sinestesia de corpos e pensamentos que não destrinçamos, sob o medo de deixarmos de existir. Como se eu te dissesse ao ouvido inspira, agora expira; como se me ensinasses tudo o que os meus pais levaram anos a construir: não sou ninguém sem ti; tu recusas a sê-lo sem mim. Precisas de mim na mesma proporção em que preciso de ti.

Vou marcar uma consulta para os dois, pedir comprimidos a ver se isto passa. Com as noites de sono que me receitaram já não vou lá. A lista de mezinhas dos que conheço já se esgotou: preciso de descansar, tu precisas de reconstruir o teu ego, de te lembrares de quem és, sem que eu esteja por perto.

És livre, digo-te: acredita em mim.

Porque não voas?


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Sunday, March 21

O pânico de eu existir


Semeio palavras e crescem frases como árvores, pés de feijão que quase chegam ao céu. Estamos os dois sentados frente a frente no chão frio da cozinha, porque ainda não tens móveis que sustentem o vazio da casa e sorrimos, alheios à felicidade que se apresenta perante nós – ridículo brinquedo que a medo manejamos, como uma partida de carnaval que nos surgiu para doravante lidarmos. Sinto a vida numa palavra tua, a eternidade em cada sorriso que me lanças. Eu respondo, lançando outras palavras que atracam em teu rosto. Um esgar que é um sorriso, um silêncio que digiro no pânico de um dia te perder. Chegaste há pouco da escola e, surpresa das surpresas, eu já te esperava. Quando chegaste, já tinha lavado a loiça do pequeno almoço

(Saio sempre a correr, nem tempo tenho de lavar os dentes)

e até me ensaiei a fazer o jantar, mas tostas mistas não são o teu prato favorito e por isso limitei-me a arredar dos sofás as revistas amontoadas e a varrer o chão com a velha vassoura que trouxeste ainda da primeira casa – do sotão que abandonaste de forma compulsiva, porque o senhorio encontrou quem lhe desse mais dinheiro pelo espaço. Chegas visivelmente cansada, com a tua maleta de médica que alberga os livros e os cadernos e o estojo e os testes – são aqueles os estetoscópios que utilizas para avaliar o sucesso dos alunos. Os mesmos alunos que roubam o tempo que é meu. Abandonaste a casa de banho com uma toalha pelos seios, o cabelo bonito e escorrido a beijar-te as costas molhadas e dizes que não posso abrir a água quente quando estás no banho. São banalidades como esta que me fazem sentir tão próximo de ti. Elevo-me acima do oitavo andar das Olaias e olho-te, perspectiva de quem sabe tudo da vida – vejo que és a mulher da minha vida: tenho tanta certeza disto como estar ali, oitavo andar, algures nas Olaias, um par de vizinhos no mesmo andar, dois elevadores que servem dez andares com 3 fogos cada um. É aquele o início do fim da minha vida. Ao teu lado, penso. Ao meu lado, tu, de toalha pelos seios, os cabelos escorridos e bonitos a beijarem-te as costas molhadas; tu pedindo-me que te penteie, que desta vez não invente, que me limite a passar com a escova de norte a sul; que não comece com ideias a querer fazer esculturas com os teus cabelos – mais logo vamos sair e não queres aparecer com o cabelo em alta tensão.

Agora estamos sentados no chão frio da cozinha, porque ainda não tens móveis que sustentem o vazio da casa e sorrimos, alheios à felicidade que se apresenta perante nós: dali a um instante vamos sair e tu vais distanciar-te de mim. Num acidente que não prevemos, encontramos o teu irmão à entrada do cinema e tu tens pânico de dizeres quem eu sou, que significo eu

(um fantasma)

pois tudo aquilo é novo: desde o tempo em que todos te viam já casada e mãe de filhos de um tal de Lourenço, menino bem e rico do Porto, que ninguém te conhece qualquer namorado, muitos amigos sim, alguns amigos de amigos, mas nenhum namorado – isso nunca. Por isso, quando o teu irmão estende a mão na minha direcção e se apresenta, a tua pele assume um tom escarlate. Eu não me apercebo do que se passa ali, o teu irmão tão pouco. Por entre um silêncio incómodo e um olá tudo bem, dito no pânico de fugir dali, tu apressas-me para dentro da sala.

Ainda nem começaram as apresentações, arrisco. Que não te estás a sentir bem, que te queres sentar – contrapões. O teu irmão a não compreender nada, eu muito menos – apenas esse teu estúpido pânico a assomar-se da tua cabeça preconceituosa

(às vezes és tão pateta)

e a impedir-me de poder ser gente, cidadão educado e com modos. O teu irmão ainda me convida a um café, ainda te tenta convencer que temos tempo. Sabes que temos, mas tu, na fobia de ele sequer saber o meu segundo nome, queres afastar-me dali. Sabes que ele vai perguntar quem sou eu, a idade, que faço, porque estou contigo. Mas tudo isso se apresenta como mistérios que não queres desvendar. Quando já estamos dentro do cinema, o quadro ainda a negro e a música de elevador a entoar, perguntei-te o porquê de tanta pressa,

(somos as únicas pessoas na sala do cinema)

que ainda tinhamos tempo e que poderíamos perfeitamente ir beber o café a que o teu irmão nos desafiou. Tu, visivelmente incomodada, mas sem que querer demonstrá-lo, optas por evadir-te à resposta e naquele momento, primeira vez que estamos frente a frente desde a altura em que estávamos os dois sentados no chão frio da cozinha, porque ainda não tinhas móveis que sustentassem o vazio da casa, sorris e iludes-me com a doce, quanto enganadora, razão de que

não me queres partilhar com mais ninguém.


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Wednesday, March 17

Miguel II


Miguel não era eu, mas o espectro que se lançara sobre nós – sombra lúgubre que levava a alegria dos meus dias contigo para as calendas do desespero. Por vezes, olhava para ti e perdida num ponto fixo, sorrias. A ocupar-te o pensamento a ideia dele, como se uma anedota florescesse na tua cabeça, tal qual as plantas que germinaste nas escadas do teu oitavo andar das Olaias, à revelia de todos os vizinhos.

Sorrias, flor aberta ao mundo, e pensavas nele. Eu ao teu lado e tu a pensares nele. Eu a colocar-me em bicos de pés para existir e ele a não precisar de aparecer, a persistir nas nossas vidas à custa das tuas estúpidas recordações. Tu a sorrires e a quase esqueceres tudo o que te mutilara e te transformara em alguém pior, asseguravas. Que noutras alturas, tu não eras assim. Mais solidária, mais preocupada, mais consciente do próximo que a seu lado se abjurava ao teu amor.

Tu que sempre foste pessimista por natureza

(mulher do copo vazio)

parecias ter guardado para ele o último reduto de beleza que parecia subsistir na tua cabeça, levando-me a pensar que um dia de facto foras feliz. Mesmo sabendo que este não te amara nunca, que te colocara em banho maria num jogo que assumiste jogar. Dizes agora que lamentas ter perdido tudo. Que a tua inocência se foi na noite em que descobriste que não existias só tu e ele, que outros rostos se fundiam nos dias que partilhavam.

Contas-me que te serviu toda a história ao jantar. Pelas vinte e uma horas e mais um minutos, numa altura em que todas as mesas do restaurante estavam já ocupadas, ele começou a falar com voz suave, em tom cadencial como quem conta uma história de embalar. Mas tu, nesse dia, ao invés de saíres porta fora do restaurante, ficaste a ouvi-lo, deixaste que ele articulasse cada palavrinha e te revelasse a desgraça que seria a desgraça dos vossos planos.

Ele continuou a falar, a dizer o que te escondia há já tanto tempo e eu comecei a ficar enjoado com a história. Quis sair dali,

(não quero sobremesa)

explico-te que já sei tudo o que havia para saber: não quero que continues. Resolve tu isso com ele; não tenho que me meter. Mas por um mórbido ímpeto, Miguel continua a falar e com a voz num murmúrio explica ponto por ponto tudo o que foi a vossa vida nos últimos tempos; não aquela que conhecias, mas aquela que existiu, ao abandono de ti, com os restantes rostos fundidos nesses dias.

À medida que este vai falando, vou trocando olhares contigo e indico-te a direcção da porta, mas tu, obcecada, olhas apenas a boca que tanto desejas. Segues cada palavra que se forma em seus lábios secos e que este molha em pequenos tragos de água. Cada gesto seu é um momento religioso que cegamente respeitas e segues. Eu profano-te. É com ele que tu encontras a tua transcendência, pois comigo sempre disseste que

Éramos diferentes

(e que eu não te admirava, que eu facilmente conseguiria arranjar alguém mais parecido comigo ou nas tuas estranhas palavras, para utilizar o teu estúpido eufemismo: melhor)

O empregado aproximou-se agora e pergunta ainda se queremos sobremesa

- já disse que não, respondo.

Miguel afasta-o com um olhar, tu não respondes. Ele segura-te na mão e olha-te nos olhos; derrotado, o empregado regressa à cozinha com a carta na mão e ficamos tu, eu e ele. A mão dele a segurar a tua, os seus olhos a perfilharem os teus. Boca infame que tanto desejas e que observas articulando cada palavra. O restaurante a prosseguir no habitual reboliço, entre pedidos e refeições regadas com bom vinho. Eu Tu Ele. Gente a mais para aquilo que pretendia transformar em sinergia solipsista. A gravata que ele desaperta com a mão livre e o arranjo no cabelo mal ensaiado ao espelho.

Tu Ele.

Eu a abandonar a sala sozinho e humilhado. Triste.


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Monday, March 15

Miguel


Um dia ligaste. Mas não disseste nada. Ficaste calada e esperaste que eu falasse. Meio envergonhado

embaraçado

deixei que acabasses por soltar um olá tudo bem. Estava sentado no meu velho sofá e tu vegetavas na tua cama de casal, oitavo andar das Olaias. Eu sentado no velho sofá da sala, sabia que em teus olhos uma lágrima contida a custo de um trago de dor, tentava soltar-se.

- Que se passa? Queres dizer-me algo?

- ...

- Mónica?

- Aconteceu.

- Que aconteceu?

- Simplesmente aconteceu

- Mas o quê?

- ...

- Caramba. Fala. Estou preocupado. Fala.

- Ele ligou-me

- Ele quem?

- O Miguel.

- e...

- e já não sei que fazer.


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Saturday, March 13

Génese


No início, bem no início, disseste que vivias perto:

Interessante: Quão perto?

“Miracle23” Perto.

Interessante: Assim perto como daqui a tua casa serem dois minutos?

“Miracle23” ...

Interessante: Esse 23 é de idade?

“Miracle23” É, e tu? Que idade tens?

Interessante: 22.

“Miracle23” És um puto.

Interessante: Pois sou. Aposto que um aprendiz nas tuas mãos.

“Miracle23” Quem sabe?

Interessante: Que fazes da vida?

“Miracle23” Sou Professora.

Interessante: Tás a dizer isso só para me excitares ou és mesmo professora?

“Miracle23” Sou mesmo professora.

Interessante: Ah. Ok.

“Miracle23” Mas excitar? Como assim?

Interessante: Sabes como é... professora... tem o mesmo efeito que enfermeiras...

“Miracle23” Excitas-te com pouco.

Interessante: Depende.

“Miracle23” Depende do quê?

Interessante: Do que tiveres para me ensinar.

“Miracle23” Como és?

Interessante: Por falar em excitação...

“Miracle23” Estúpido.

Interessante: Sabes como é... o normal: bípede, posição erecta, polegar oponível...

“Miracle23” Pelo menos sabes alguma coisa de Antropobiologia.

Interessante: Já vi programas do Acontece com menos nível que este.

“Miracle23” Lol

Interessante: És professora de quê?

“Miracle23” Biologia.

Interessante: >Gostei da parte da reprodução.

“Miracle23” Pois, regra geral é que os miúdos gostam mais.

Interessante: Que queres dizer com miúdos? Tenho 22 anos.

“Miracle23” Nota-se.

Interessante: Que é que se nota?

“Miracle23”: Nada, esquece.

Interessante: Já esqueci.

“Miracle23” E olha lá, porquê esse nick?

Interessante: Fica assim tão difícil de adivinhar é?

“Miracle23” ...

Puto: Está melhor, Cinderela?

“Miracle23” Ligas a tudo o que te dizem é?

Puto: Não, estou a abrir uma excepção por seres tu

“Miracle23” Julgas-te com muita graça não achas? Levas muitas com essa conversa é?

Puto: Não, a maior parte faz-se de esquisita, mas contigo, pelo tempo que já tamos a conversar parece estar a surtir efeito...

“Miracle23” Tchhh... chego para ti... Tenho três irmãos. Em ironia não me ganhas

Puto: E em que é que mais eu perderia contigo?

“Miracle23” Lol. Isso agora... és um puto com muita treta.

Puto: Acho que vou levar isso como um cumprimento.


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Thursday, March 11

Síndrome (*)


- Estou gorda

- Não estás

- Estou

- Não estás.

- Sinto-me gorda. Aposto que nem consigo entrar dentro das calças que me ofereceste.

- Que disparate! Claro que consegues. Comprei as calças dois números acima.

(Olhar fulminante)

- Por engano, por engano (embaraço). Tenho a certeza que as calças ainda te servem.

(Sorriso. Diriges-te ao armário e resgatas as calças.

...

Silêncio incómodo.)

- Pronto, está bem.... talvez estejas um pouco cheiinha

(Buáááá)

- mas eu gosto assim! Mesmo! A sério que gosto! (Aflito. Muito.)

(*) Para a Catarina, cumprindo desta forma a promessa que fizera a 16.12.2003


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Monday, March 8

Sopro


Uma vez, perguntaste-me porque razão os lenços de papel, que comprava para ter comigo no tablier do carro, eram sempre os mais caros do hipermercado.

- Ora... porque as tuas lágrimas merecem o melhor, respondi-te.

Não te parece óbvio?


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Saturday, March 6

Ecce Homo


Lanço-te beijos, como quem atira flores ao chão debaixo de teus pés – fagulhas incandescentes que se perdem no céu negro da noite, onde exaustos repousamos. Debruço-me sobre ti, largo-te um beijo sobre o rosto, percorrendo com a minha respiraçao os teus olhos nariz boca pescoço. Nas notícias das oito, dizem que

- Hoje vai haver uma chuva de estrelas.

A comunidade científica e orgãos de comunicação social ignoram a verdadeira causa daquilo que chamam de fenómeno astronómico ímpar: não sabem que aquilo que os fará estar toda a noite em branco é apenas as tuas lágrimas que, evaporadas do teu rosto subiram aos céus, onde agora, em estado gososo, ameaçam riscar o céu de luz. Vais já dizer que sou eu o causador dessas lágrimas, já sei. Que bem sei em que frágil estado tu estás e que uma vez mais não tive atenção a isso. Eu vou calar-me e tu vais insistir neste ponto. Vais ensair o número do choro e eu vou sentir-me abatido.

Mas em bom rigor, face a tudo, mesmo temendo que te lances num pranto, apetece-me ignorar o sal que te escorre pelas faces abaixo e, olhos nos olhos, ao invés de me culpar, sinto-me impelido a afirmar, quase com orgulho, que esta deve ser a primeira vez que me imputas as responsabilidades de algo belo. E isso, não sei muito bem porquê, faz-me sentir mais humano.


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